Nossas Histórias

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terça-feira, 28 de maio de 2013

Depoimento da HERDEIRA...

ABUSO + AMEAÇAS (tio - ex marido da minha tia por parte de pai)

Ano: 1987-1992
Idade: 7-12 anos (mas pode ter começado antes)

Quando éramos menores, eu e a minha irmã, às vezes, passávamos o final de semana na casa da minha tia madrinha (irmã do meu pai) junto com ela e com o seu ex marido. Eu o tinha como um segundo pai. Ele era a pessoa em quem confiava e não tinha medo (do meu pai eu tinha).
Um dos episódios aconteceu quando tinha mais ou menos 11-12 anos. Em um sábado à noite, de um determinado final de semana estava na sala assistindo televisão, a luz estava apagada. Minha tia estava na cozinha fazendo o jantar e a minha irmã estava em um dos quartos brincando enquanto aguardávamos a chegada do tio. Quando ele chegou me abraçou, começou a beijar o meu pescoço, percebi que estava acontecendo algo diferente, tentava com os braços me afastar, mas por ele ser forte continuava me agarrando, passou a boca desde o meu pescoço até o colo, me segurava com um dos braços dando a volta pela minha cintura e com a mão do outro braço segurou o meu pescoço. Abriu com força os dois primeiros botões do meu vestido, passou a boca no colo, com o zíper da calça aberto, com os dois braços me puxou para junto do corpo dele até que consegui o empurrar e correr para o banheiro. Chorei muito, tomei banho, estava com nojo. Perdi momentaneamente a voz, não quis jantar e fiquei com medo de dormir lá. Sempre que dormíamos na casa da minha tia, dormíamos eu, minha irmã e ela ou eu e minha irmã em um quarto e ele em outro ou os dois em outro. Nessa noite dormimos eu no canto da parede, minha irmã no meio e minha tia na ponta da cama. Ele não tentou mais nada e agia como se não tivesse feito nada de errado. Quando cheguei em casa no domingo pensei em nunca mais ir para a casa dela, me preocupava comigo e com a minha irmã.
Passaram-se alguns meses e em outro final de semana fomos novamente para a casa dela. O sábado foi tranqüilo, porém, sempre me esquivava dele quando se aproximava com a intenção de “brincadeiras” que sempre fazia em que agarrava, beijava o pescoço, colocava no colo e fazia carinho. Mas no domingo em um momento em que estava lendo no quarto da minha tia, ela estava na cozinha fazendo o almoço e a minha irmã na sala vendo televisão, ele entrou no quarto, encostou um pouco a porta, me puxou pelas pernas para a beirada da cama e se deitou em cima de mim esfregando o corpo no meu. Consegui sair daquela situação, fui para o banheiro e depois fiquei na cozinha com a minha tia, torcendo para chegar a hora de ir embora. Ameaçou-me falando que se contasse alguma coisa para alguém ele me machucaria e/ou faria alguma coisa contra a minha tia e/ou contra a minha família. Depois desse dia nunca mais fomos para a casa dela. Nas ligações que a minha tia fazia para a casa dos meus pais ele fazia questão de que me chamassem para falar com ele, ouvia ameaça e a pergunta de quando voltaria para passar férias com eles.
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Quando tinha 16 anos meus pais viajaram e pela primeira vez fiquei sozinha em casa. Antes de viajar meu pai avisou a minha tia, pois qualquer coisa que precisasse ela seria a pessoa a quem deveria recorrer. Numa determinada tarde ouvi a campainha tocar, olhei através do olho mágico e o tio estava no portão, continuei olhando para ver se via a minha tia, pois pensei que poderiam ter ido ver se estava tudo bem, mas ela não estava, ele estava sozinho e sabia que eu também estava só. Ele insistiu, não abri e foi embora. Não falei sobre o que aconteceu com ninguém durante 5 anos. Em 1998, após um sequestro com roubo e abuso (voltarei para relatar) consegui falar com uma amiga sobre o abuso sofrido pelo ex marido da minha tia. Em 2010 contei o que aconteceu a uma tia por parte de mãe e a minha irmã, mas pedi para não contarem a ninguém devido ao fato de a minha mãe até hoje não ter uma boa relação com a minha tia, por outros motivos.
Ano passado ao começar a escrever esse relato a “ficha” de que era abusada desde pequena “caiu”, pois as “brincadeiras” que sempre fazia em que agarrava, beijava o pescoço, colocava no colo, fazia “carinho”, passava a mão na minha perna... já faziam parte quando era bem menor. Tentei lembrar quando começou exatamente, mas só me recordei a partir dos 7 anos, então, não sei se começou antes disso, não duvido que tenha acontecido.




Reações durante esses anos:

Ansiedade
Apatia
Confusão
Culpa pelo o que aconteceu
Culpa por não ter dito nada a ninguém na época para que, talvez, fosse preso e anos depois ele não ter a chance de matar um homem, pois se talvez tivesse sido preso não teria feito mal a mais ninguém
Decepção
Dificuldade de me aproximar das pessoas
Insegurança
Isolamento em todos os lugares, inclusive em casa (comecei a me afastar das pessoas com medo de que me fizessem mal e por não querer ficar chorando na frente das pessoas)
Medo de que fizesse mal a minha família
Medo de que me fizesse mal novamente
Nojo
Perda de confiança (ele era a figura masculina que confiava, não tinha medo)
Preocupação
Susto
Tensão
Tristeza (porque gostava muito dele e por meus pais não se interessarem em saber o motivo pelo qual chorava com mais frequência, por só reclamarem, criticarem, baterem e colocarem de castigo)
Vergonha

Choro mais constante
Dor de cabeça
Passei a ficar mais calada
Perda momentânea de voz
Vomito (durante algumas semanas após o jantar)


Reação da família (em casa) diante da mudança de comportamento:
- Pai: sempre reclamava, criticava, ameaçava bater e colocar de castigo e, às vezes, batia e colocava de castigo quando chorava, dizendo que não tinha motivo para chorar, pois tinha tudo o que precisava (referente à parte material), mas nunca perguntava o que estava acontecendo.
- Mãe: reclamava quando chorava, mas também não perguntava o que estava acontecendo.
- Avó: reclamava e perguntava o motivo do choro.
- Irmã: indiferente.


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Como lidei com o que aconteceu: no início me sentia culpada pelo o que aconteceu, parei para analisar se me vesti de forma mais sensual, que chamasse a atenção dele, se falei alguma coisa e de alguma forma que justificasse o que ele fez, depois percebi que não havia feito nada de anormal e nunca tive o interesse de chamar a atenção para passar o que passei. Depois comecei a pensar no passado dele segundo o que ele mesmo falava, era ex combatente da segunda guerra mundial, viu muitos colegas morrerem e eu acreditava que algumas características dele como ciúme, possessividade e até mesmo o que fez comigo poderia ter vindo desse passado e até mesmo do que passou na infância e desconhecia. Porém, após ele ter assassinado um homem (mais ou menos em 2002), ter sumido e ficar foragido, foi descoberto que nem mesmo o nome que ele usava era verdadeiro, então, passei a desconfiar desse passado de ex combatente de guerra, não sei mais se foi real, de uma hora para a outra não conhecia mais aquele em quem um dia confiei. Atualmente, creio que teve um passado, incluindo a infância, bem problemático para fazer o que fez comigo e com o rapaz, embora não justifique e saiba que nem todos que tiveram um passado complicado reproduzem o que vivenciou de ruim. Na verdade quis procurar alguma justificativa para o que fez, não queria acreditar no que aconteceu...                                                                            (Herdeira)

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