Nossas Histórias

ESSE BLOG É PARA CONTARMOS AS NOSSAS HISTÓRIAS, MOSTRAR A NOSSA LUTA E A NOSSA VITÓRIA...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Relato de uma menina.

"Comecei a ser usada quando tinha cerca de 7 pra 8 anos! Amava ir pra casa da minha vó todos os finais de semana, férias e feriado!
Na época meu tio mais novo tinha cerca de 17 pra 18 anos e começou a me molestar.
Eu como nova não entendia muito bem, achava que ele queria me namorar e deixava!
Foi ficando cada vez pior. Um dia, meu avô pegou ele passando a mão em mim e contou a minha vó, ela chamou minha atenção como se eu estivesse errada e ameaçou contar a minha mãe, mas como não queria fazer conflitos entre meu pai e o irmão, fiquei quieta! Conforme o tempo passava, percebia que aquilo era um vício, quando brincava com minhas primas, brincávamos de ficar passando a mão uma na outra, quando dormia na minha tia, dormia em uma cama com um primo da mesma idade, e ficamos molestando um ao outro.. e assim foi! Até que um certo dia minha tia por parte de mãe tinha uns amigos senhores, ela me levou junto com minhas primas até onde eles moravam, e novamente fui abusada. Eles abusavam e eu deixava, calada, pois pra mim aquilo não era ruim era prazeroso!
Tinha cerca de 10 pra 11 anos não entendia muito bem! Mas minha infância foi bem difícil, aos 14 anos tive meu primeiro namorado, foi minha "primeira vez", confesso que foi horrível, mas foi a porta pra me tornar mais ambiciosa por sexo! Só me senti liberta quando comecei a buscar através da FÉ, em 2011. Me considero curada e liberta fisicamente e emocionalmente!" (Relato de uma menina - 2013 - Vic.)

"O corpo humano responde aos estímulos recebidos, bons ou maus. Muitas crianças sentem prazer durante o abuso sexual, o que é natural em termos de excitação fisiológica, ou resposta do corpo frente a um estímulo, e não significa que a criança queira ser sexualmente abusada e nem que ela está apreciando e gostando do abuso sofrido.
Os meninos podem ter ereções e meninas podem ter lubrificação vaginal, não só pelo prazer frente ao estímulo, mas também como reflexo do medo que sentem.
Mas, as crianças não entendem dessa forma e geralmente acreditam que o abuso é culpa delas. As crianças mais velhas, podem até sentir orgasmo como resultado do abuso, o que as faz ainda mais envergonhadas e mais culpadas.
Os abusadores sexuais usam esse sentimento de culpa e vergonha das crianças como forma de controlar a criança e desencorajá-la a denunciar o abuso.
Pois manipulam a criança fazendo-a acreditar que foi ela quem quis esse contato sexual porque teve prazer com ele.
A criança com isso sente-se traída: traída pelo abusador, traída por seu corpo responder aos estímulos e traída por si mesma por "concordar" com o abuso sexual." Drª Magda Gazzi

Quando sofremos abusos, são gerados transtornos em nossa mente. Buscamos prazer demasiado em sexo, alguns nas drogas, álcool e etc.. Sempre tentando fugir daquilo que um dia bateremos de frente, ou seja, o tempo que passar, se não tratarmos e buscarmos a cura emocional, a vida se encarregará de nos parar. Quem determinará o que será feito do problema, será você!! Ninguém fará isso por você. Terapia e muitas coisas podem ajudar sim, mas você será o grande arquiteto da construção dos novos alicerces de sua vida!! Tome as rédias da sua vida, faça a diferença hoje!! C.M.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Depoimento da "SEM NOME"

Oi, Bya. Como não achei nenhum pseudônimo que gostasse, resolvi por esse mesmo. Mesmo porque o nome é o que menos interessa. Sou uma mulher de mais de 40 anos e fui abusada pelo meu pai na infância e adolescência. É claro que não foi por minha vontade e sim, com muita violência e ameaças. Li os depoimentos do blog e percebi que todas as mulheres mais velhas tiveram o mesmo problema além do medo intenso: não ter para quem recorrer. Aliás, faço parte faz anos da sua comunidade e acho que nem mesmo hoje se pode fazer alguma coisa.
Minha mãe e família sabiam de tudo e culparam a mim. Quem manda ter um corpo bonito e, segundo muitos, ser atraente? Corpo bonito na juventude, pois engordei mais de 30 quilos para meu pai não me querer mais. E ele não quis. Deve ter achado outra, mas até hoje sou a culpada. Vi que não fui a única a usar desse artifício.
Não preciso falar das consequências: vários tipos de fobias, problemas físicos e emocionais. Mas o pior é o que comecei a sentir agora, em plena maturidade. Raiva, ódio, ressentimento, mágoa e desespero. Desespero de ter visto a minha vida fluir entre os meus dedos. Impotência de tentar recomeçar com quase 50 anos. Mágoa e ódio de ver que toda a família se deu bem e eu, por um capricho do destino, não pude estudar e nunca soube o que é amor. Mesmo numa relação sexual, nunca senti muito tesão...não sei o que é orgasmo. Não é justo!!!!!!!!!!!!!!!! 
Meu pai abusava de mim constantemente. De mim e da minha irmã. Só que ela aceitava o fato e eu era a rebelde. Ela recebeu tudo e eu nada (materialmente falando). E o mais triste é que a minha mãe a ama profundamente, pois é a coitadinha e a mim ela renega, pois eu fui a concorrente. Concorrente? Como?
Bya, você me conhece o suficiente para saber o quanto eu lutei para não sucumbir. E sabe que não sou nenhuma revoltada, que trabalho pra caramba e que luto para alcançar nem que seja um pouco da tal coisa que chamam de felicidade ou paz de espírito. Mas resolvi seguir o seu conselho e vomitar toda a dor e mágoa que estou sentindo. A partir de agora NÃO SOU MAIS UMA FILHA DO SILENCIO. Dei o meu grito e me sinto bem melhor e mais aliviada. Hoje sei que nunca fui vadia, ao contrário de muitos da minha família. Me dou mais valor pois nunca me vendi, assim como tantos outros. E não desisti de estudar e de encontrar um amor, de ser "normal". Agradeço esse desabafo a toda comunidade, pois vendo a força de tantos, consegui a minha para por no papel esse desabafo. Talvez, se eu tivesse sido forte no passado, teria uma vida. Agradeço a você Bya, mesmo sabendo o quanto você odeia agradecimentos. Acho legal você não vender sua imagem para revistas ou programas de TV. Não vale a pena. O que vale a pena é saber que somos honestas conosco mesmas e que lutaremos para que outras pessoas também desabafem. E sintam o alívio que senti ao escrever esse texto. Como puxar o tampo de ralo de uma banheira lotada de merda até a borda. Sei que antes de enche-la novamente com água limpa é preciso limpa-la bem. Mas vale a pena todo o trabalho, ou seja, toda a dor. E espero um dia te mandar um relato de superação, me sentindo vitoriosa e não arrasada.




domingo, 4 de agosto de 2013

O Círculo / Bya Albuquerque

Toda vez que eu recebo um depoimento, seja para postar no blog ou não, somente o leio uma única vez. Até os meus. Aliás, não preciso reler, pois todos têm pontos comuns. Ou seja: é um círculo. Sem começo e sem fim. As nossas histórias são diferentes e iguais. Diferentes no seu desenvolvimento e parecidas no final. A igualdade está na falta de solidariedade, no tabu pré-concebido e na omissão social. Omissão social, mas como?...vocês perguntariam. A resposta é simplesmente que sim. Já repararam nos posts das comunidades? Uns somente postam (repassam) textos de terceiros; outros são altamente sensacionalistas; outros se escondem atrás de posts bonitinhos e de auto ajuda. Pouquíssimos comentários. Quase nenhuma opinião. Zero de discussão. E é logico que eu e a minha comunidade estamos nessa estatística.
Poucos tentam realmente mudar a situação. Mas é praticamente impossível. Dói ver quando uma celebridade sofre um revés e todos sentem pena e todos são solidários. Mas a população não é composta por celebridades. É composta por seres humanos comuns. Seres humanos sedentos por compreensão...justiça...aceitação. A grande maioria sem atendimento médico / psicológico. Com dores físicas e emocionais.
Vou falar um pouco da Comunidade "Filhas do Silêncio". Nós, filhas e filhos do silêncio sofremos o abuso sexual numa época onde até o sexo era tabu, quanto mais a violência sexual, principalmente a intrafamiliar. Sofremos em silêncio e, além de sermos agredidos, também éramos abandonados a própria sorte. Fomos humilhados pelo nosso jeito de ser, o que hoje seria chamado de bullying. Muitos cometeram suicídio, voluntário ou involuntário. Aqueles que conseguiram sobreviver, sofrem de depressão...auto mutilação...baixa estima...várias fobias...problemas com sono...dependência química...transtornos alimentares. É um círculo. O emocional causa danos físicos e os físicos causam problemas emocionais. 
Não posso falar pelos outros. Apenas os represento em certas situações. Mas posso falar por mim. Eu era aluna excelente, pois adorava estudar. Porém na adolescência fui uma aluna totalmente medíocre. Por falta de sono, pelo terror / medo sempre vividos e pelo bullying sofrido (inclusive pela minha própria mãe), perdi o interesse pelos estudos ou melhor, não conseguia mais me concentrar. Abandonei-me totalmente. Me alimentava mal, não conseguia dormir ou descansar e praticava auto mutilação que beirava a auto punição. Mas punição pelo que? Por meu pai sentir tara por mim, por minha mãe me ignorar? Tudo isso foi muito cruel...brutal. Não somente para mim. Continua sendo cruel e brutal para muitos.
Vi o meu potencial rebaixado e deixei isso acontecer. Deixei as pessoas pisarem em mim e fiquei e muitas vezes ainda fico calada. Aos 46 anos,sinto-me velha e inútil. É como se não houvesse mais nada para mim. E sei que não compartilho esses sentimentos sozinha. Muitos de nós, vítimas de violência sexual e psicológica / emocional sentimos-nos enterrados vivos.
Porém quantos sonhos eu tive e quantos sonhos precisei enterrar. Quando era adolescente, como não conseguia dormir, ficava sonhando acordada com uma família ideal. Não aquela que me desse tudo materialmente, mas aquela que me amasse, que desse apoio aos meus sonhos. Depois, veio a fase de querer intensamente um irmão mais velho. Aquele que mesmo que implicasse comigo, ao mesmo tempo me amasse e protegesse. Um irmão para quem eu fosse importante e querida...Hoje em dia, o meu maior sonho é dormir. Sem remédios...sem ansiedade...sem sonhos. Ou então, pelo menos em vez de quando, ter um sonho bom...bonito...reconfortante. Mas esses são meus sonhos pessoais, íntimos e, que, dificilmente ou nunca se realizarão. Não por eu ser pessimista, mas sim por ser realista.
Mas na verdade, o que eu quero é que num futuro próximo esse círculo dos abusados sexualmente se rompa. Trazendo à tona ajuda, solidariedade e aceitação / compreensão. Que jamais novamente um abusado precise provar que foi uma VÍTIMA!!! E não estou sendo sonhadora. Nesse ponto estou sendo esperançosa...pois ainda acredito na humanidade e na sua capacidade de entrega e superação.

Bya Albuquerque, Ribeirão Preto, 05 de agosto de 2013.