Nossas Histórias

ESSE BLOG É PARA CONTARMOS AS NOSSAS HISTÓRIAS, MOSTRAR A NOSSA LUTA E A NOSSA VITÓRIA...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

03.12.2015

Com a postagem abaixo, que mostra exatamente como me sinto no momento, estou encerrando esse blog de depoimentos. Após a gravação de um programa no início do ano e da abertura do meu blog / diário no ano passado, as pessoas me procuram para conversar, pedir ajuda, trocar ideias. Então os depoimentos terminam aqui, com o meu, infelizmente totalmente diferente de como eu gostaria. Mas a vida é assim mesmo e o mais importante é sempre seguir em frente e manter a esperança e a fé. Aqui, nesse espaço, muitos deixaram de ser filhas ou filhos do silencio e tiveram a coragem de expor suas histórias...suas dores...seus medos. Todo o meu respeito e carinho a essas pessoas. Não virou um livro...eu não quis. O blog já é um livro. E quem quiser saber como é a vida de uma abusada sexualmente com todas as suas consequências físicas e emocionais pode ler no blog "Diário de uma filha do silêncio / Bya Albuquerque" :
http://diariodabyaalbuquerque.blogspot.com.br

Abraço carinhoso a todos que não só colaboraram 
com o blog, mas também sempre mandaram
mensagens de força e encorajamento. 
Bya Albuquerque



ÚLTIMO DEPOIMENTO / BYA ALBUQUERQUE

Era uma vez uma menina...menina num corpo de mulher...mulher num corpo de menina vagando por um mundo sombrio. Sozinha, solitária, com medo. Muitas vezes dava de encontro com outras sombras que também vagavam por ali. Sempre a procura de uma saída ou de uma luz. Nunca encontrando o que procurava. Às vezes sentia muita ansiedade e outras vezes não. Às vezes a esperança tomava conta do seu ser e outras vezes era o desespero. Fazia frio, mas ela mal sentia...sentia era muito calor. Não sentia fome, porém a sede era constante. Via os outros vultos que também estavam procurando paz e consciência de si mesmos...o encontro da alma com o corpo...sua essência. Ela não sentia medo...somente uma ânsia enorme de um encontro que a preenchesse com amor e esperança. Mas muitos que passavam por ela diziam para não ter essa esperança, que tinha gente que não foi feita para amar e ser amada...para ser feliz, somente para trazer felicidade aos outros. E quanto mais a menina ouvia isso, mais dentro do seu ser nascia uma determinação...uma teimosia de encontrar o que estava buscando. Mas como? Se ela mesma não tinha certeza dessa busca. Estava cansada ao extremo...mas não conseguia nem descansar e nem dormir. Muitos desistiam da busca e se iam. Mas não para a luz e sim para as trevas. A menina sabia como era fácil esse caminho, mas já estava acostumada com o difícil...muitas vezes com o impossível. Várias vezes ouvia o seu nome...ficava buscando, procurando...porém... em vão. Estava fadada a ficar nesse mundo de trevas, pois a única saída era a mudança. Mudança interior...dos seus conceitos...dos seus objetivos. Mudança em se respeitar...em se aceitar...em se amar. Será que ela conseguiu...consegue...conseguirá? Somente o tempo mostrará a verdade e quem sabe a saída...
B.A

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

“COM 5 ANOS, SENTIA ÂNSIA FAZENDO SEXO ORAL NELE. ERA POLICIAL E TENTARAM ESCONDÊ-LO” / FONTE: BOLSA DE MULHER

Atenção: essa é uma história real e foi publicada de forma fiel ao relato da vítima. As palavras utilizadas podem ser fortes e abordar atos sexuais e de violência.
Meus pais se divorciaram pouco antes de eu completar um ano de vida. Então, fui criada por minha mãe e minha irmã mais velha. Minha mãe sempre teve muito contato com sua irmã, minha tia, que tinha dois filhos e mais tarde se casou novamente e teve mais dois filhos com outro homem, um policial.
Não lembro direito quando tudo começou, porém tenho certeza de que aconteceu e, pelas minhas contas, eu deveria ter uns 5 ou 6 anos quando o marido da minha tia começou a se aproximar de mim.
Ele frequentava nossa casa assiduamente e muitas vezes conseguia ter a oportunidade de ficar sozinho comigo. Um dia foram todos ao mercado e apenas nós ficamos em casa. Lembro de ele tirar minha calça e minha calcinha e de eu não entender o que acontecia. Ele me acariciava e logo começou a fazer sexo oral em mim. Perguntava se eu estava gostando, mas eu mal sabia o que estava acontecendo, nem imaginava o que era aquilo!
Outras vezes recordo de ele colocar em canais pornôs e me mostrar os filmes. Quando eu tentava sair, ele me puxava e mandava sentar e assistir, caso contrário ele me mataria e mataria minha mãe. Novamente eu retornava ao sofá. E logo ele começava a me acariciar e me mostrava seu pênis. Mandava fazer sexo oral nele. Lembro de ele rir e me chamar de gulosa quando eu tinha ânsia fazendo sexo oral nele. Colocava o dedo na minha vagina e ria com a minha reação.
Ninguém nunca desconfiou. Eu tentava fugir, mas era difícil, e tudo se tornava cada vez pior. Fui crescendo e quando eu já entendia o que ele estava fazendo, tentava evitar cada vez mais. Morria de medo do que ele faria comigo.
Aos 11 anos de idade eu tive um sonho com ele e acordei chorando. Minha avó estava na minha casa e ouviu. Foi até o meu quarto e disse para eu não me preocupar, porque era apenas um pesadelo. Eu simplesmente disse: “meu pesadelo é real”. Após esse episódio, nossa empregada veio atrás de mim e me perguntava infinitamente o que era meu pesadelo real. Eu contei para ela. Implorei que não contasse à minha mãe, porque eu tinha muito medo. Mas claro que ela contou...
Lembro que depois disso eu fiquei trancada no quarto o dia todo, só esperando o momento em que minha mãe viria falar comigo. Não demorou muito. Ela entrou, sentou na cama e disse: “filha, eu te amo, e não vou deixar ninguém machucar você! Me conta o que está acontecendo. Eu vou te proteger!”. Entre muitas lágrimas e soluços, meus e dela, eu contei.
Minha mãe perdeu o chão. Ela saiu gritando pela casa "ele fez ela chupar ele!!", quebrando tudo e chorando muito. Horas depois, ela me levou à delegacia. Eu fiquei do lado de fora, em um banco, enquanto escutava ela contar e chorar. Ela tentava ser forte na minha frente.
Voltamos para casa e ela e meu pai saíram atrás dele para matá-lo.
Na época, ele era Cabo da Polícia Militar da nossa cidade e tinha 46 anos. O Capitão de Polícia e outros membros da corporação o esconderam dentro do Batalhão. Todos estavam do lado dele.
Após isso tudo, fiz diversos exames, frequentei muitas psicólogas, médicos, fui a muitos delegados, juízes, etc.
Minha tia ficou do nosso lado e logo descobrimos outros abusos, dos filhos dela também. Totalizaram-se 10 crianças abusadas e um estupro* de uma menina de 13 anos, além de ele ter feito uma roleta-russa com um adolescente de 17 anos. Muitas das pessoas abusadas faziam parte da nossa família, poucas eram de fora.
Durante o processo judicial, foi um alerde na nossa cidade. Na primeira audiência, lembro de estarmos no fórum e darmos de cara com ele. Ele olhou para todos nós e riu debochadamente. Nós subimos e na sala eu comecei a contar. Minha mãe chorava e eu disse: "não chora, mãe, já passou, nós vamos vencer". Nesse mesmo dia, minha mãe olhou para a advogada dele e perguntou se ela tinha filhos. A advogada levantou e abandonou o caso durante o meu depoimento.
Eu fui ajudada, fui tratada, tive uma profunda depressão e tentei me matar mais de 3 vezes. Em todas elas, minha mãe me encontrou e me salvou. Ele foi punido com 30 anos de prisão, mas após 5 anos preso ele foi libertado e cumpre hoje a pena livremente por ter tido bom comportamento.
Hoje tenho 19 anos. Vivo uma vida normal. Estudo psicologia e passei por cima das pedras em meu caminho. A história é longa e tem muito mais, mas não quero me prolongar. Só peço que fiquem alerta em suas casas, com seus filhos, e nunca confiem em ninguém.
Por que publicar esse relato?
Depois das muitas histórias que já publicamos de casos de abuso sofridos pelas leitoras do Bolsa de Mulher, continuamos recebendo diariamente relatos tristes que só confirmam o que temos percebido desde que abrimos espaço para abordar esse assunto: o abuso sexual e o estupro estão muito mais próximos de nós do que podemos imaginar. E a palavra das vítimas que nos escrevem nos faz acreditar que continuar tratando desse tema é uma forma de ajudar e, quem sabe, evitar que novos casos aconteçam.
Nosso objetivo é conscientizar que a culpa nunca é da vítima, alertar para que os pais fiquem mais atentos aos seus filhos, para que as mulheres percebam riscos que correm e também – e principalmente – indicar formas de agir contra os agressores, aconselhar sobre como denunciar e ouvir especialistas que possam ajudar em diferentes casos.
Punição para os agressores de crianças
O melhor caminho, apesar de ser bastante doloroso, é sempre denunciar. Se as medidas cabíveis não foram tomadas logo que o caso aconteceu, é possível prestar queixa contra um agressor que praticou violência com uma criança mesmo após a vítima atingir a fase adulta. A pena vai depender do tipo de crime cometido.
No relato acima, a vítima denunciou ainda antes de atingir a maioridade, e o agressor foi punido com 30 anos de prisão. A chance de responder aos crimes em liberdade após cumprir parte da pena tendo boa conduta dentro da cadeia é uma brecha que a lei brasileira permite. Esse benefício pode ser revisto a qualquer momento, desde que haja, por parte do preso, qualquer descumprimento de obrigações ou caso cometa outro crime durante esse período.
Abuso x Estupro
*No texto, a vítima relata outros casos pelos quais o agressor foi julgado e cita abusos sexuais e estupro de maneiras distintas. Isso porque existem crimes diferentes dentro do que a justiça qualifica como violência sexual e pode ser que o acusado tenha sido condenado por outras práticas criminosas, que não estupro. Porém, é importante esclarecer que anos atrás, era considerado estupro apenas abusos com penetração, o que não acontece mais hoje em dia. A lei atual classifica qualquer ato libidinoso forçado como estupro - seja o sexo oral, masturbação ou qualquer outro tipo de carícia sexual. Um advogado pode ajudar a entender em qual caso a violência se enquadra - ou mesmo o Disque Direitos Humanos (100).
Como denunciar
O Disque Direitos Humanos, que atende através do número 100, está disponível 24 horas por dia para receber denúncias de agressão ou abuso contra crianças. Seu nome ficará em sigilo absoluto e, de lá, o caso será transferido para as autoridades responsáveis por investigar o caso. Se preferir, você também pode procurar por uma delegacia e prestar queixa pessoalmente.
E você? Já foi vítima de abuso?
Falar sobre as experiências pelas quais passamos é um processo importante para aceitar o que aconteceu e também para superar. Além disso, é muito importante para ajudar outras pessoas a enfrentarem essa situação e conscientizar a população sobre o problema. Foi isso que pensamos ao decidir criar espaço no site para essas histórias. Também queremos saber a sua. Fique à vontade para se abrir. Envie um e-mail para a nossa redação (através do redacao@bolsademulher.com) e compartilhe o que você nunca contou para ninguém. Se você permitir, contamos sua história para outras leitoras, sem nenhuma identificação.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DEPOIMENTO DA CLAUDIA SOBRAL...ATIVISTA CONTRA PEDOFILIA...LÍDER DAS UMA DAS MELHORES COMUNIDADES "BRASIL SEM PEDOFILIA"


CLAUDIA, ALÉM DE AMIGA, ME AJUDOU MUITO NA FORMAÇÃO DAS "FILHAS DO SILENCIO". MUITO TRISTE E CHOCANTE ELA VIVENCIAR ISSO...

PEÇO QUE COMPARTILHEM MUITO!!!
Quem me acompanha, é meu amigo no face, na vida (ou me ambos), sabe que há um mês minha vida virou de cabeça pra baixo.
No dia 04 de julho meu ex marido, Alexandre tentou estuprar minha filha.
Sempre fui uma defensora dos direitos humanos, principalmente da não violência contra crianças, adolescentes e mulheres.
Um dos crimes mais abomináveis na minha opinião é a violência sexual.
Nunca aliviei estuprador e nunca relativizei crimes sexuais.
Crime é crime. O fato de meu ex marido ter tentado e não ter conseguido lograr êxito, só diminui a culpa dele perante a nossa justiça, que só considera um crime maior quando a vítima morre.
Para a vítima, vai ser sempre um estuprador nojento, calculista e inescrupuloso.
Uma pessoa asquerosa que não respeitou casamento, família e amigos, em nome de satisfazer um desejo doentio pela enteada.
Prometi a mim e a ele que só terei sossego quando todas as pessoas ficarem sabendo que aquele Alexandre calminho, bonzinho e amoroso é uma farsa. É apenas uma pessoa fria, calculista e sem escrúpulos.
Uma farsa.
A reportagem abaixo é apenas mais um passo na minha luta por justiça.
NUNCA IREI ME CALAR!!!!!!
Vítima conta o seu drama de violência doméstica e destaca importância do evento
A funcinária pública Cláudia Sobral já confirmou presença em palestras que serão promovidas na programação do TJ/RJ. O seu interesse pelo tema vem de muitos anos, como ativista e líder em grupos contra a pedofilia. Mas por ironia do destino, Cláudia viu acontecer dentro do seu lar um crime inúmeras vezes relatado pelas vítimas que ela procurava ajudar. A filha de Cláudia, uma jovem de 19 anos, sofreu uma tentativa de violência sexual do padastro. O caso foi registrado na Polícia Civil e o próprio homem confessou as suas intenções.
Cláudia conhecia o suposto agressor há nove anos e estava casada com ele há seis. "O nosso casamento era perfeito. Ele parecia o marido mais apaixonado do mundo. Tratava os meus dois filhos do primeiro casamento de uma forma extremamente carinhosa e nunca desconfiamos de nada", descreve ela. Segundo Cláudia, o homem confessou para a própria família que vinha observando a jovem há dois anos, por uma fechadura da porta do banheiro, sempre que a esposa deixava a casa para qualquer compromisso.
A mulher conta ainda que a polícia periciou o computador do marido. Foram encontrados acessos a muitos sites de pornografia, especialmente com imagens de incesto entre padrasto e enteada. "Este detalhe consta no inquérito, a fixação dele por este tipo de vídeo. É muito suspeito.
O caso aconteceu no início do mês de julho, quando Cláudia saiu de casa cedo para trabalhar. Ela conta que o homem simulou sair para um compromisso e voltou para olhar a jovem por uma pequena brecha debaixo da porta do banheiro, enquanto ela tomava banho. No entanto, a jovem ouviu barulhos estranhos e abriu a porta, se deparando com o padastro. Segundo Cláudia, ele não escondeu a intensão, o que deixou em pânico a menina. "Ele telefonou para uma tia contanto o que estava acontecendo e pedindo socorro, depois colocou num grupo de whatsApp, para as amigas", conta a mulher. Outro fato estranho, a mulher afirma que o homem estava com as malas arrumadas no carro. "O delegado disse que ele realmente tinha planos de fazer algo muito errado", destaca. Em seu depoimento na delegacia e para a família, o homem alegou que - "foi um momento de fraqueza e faz parte da natureza masculina".
O registro na delegacia, segundo Cláudia, foi outro drama que ela passou. "A escrivã não queria registrar nada, alegando que ele apenas tentou, mas não conseguiu. Como se isso não fosse um crime. Não é crime tentar? Ficou caracterizado como crime menor, porque não tocou nela. Se for condenado ele vai pagar uma cesta básica e tudo resolvido", critica a mulher, destacando ainda que tem convicção que o marido premeditou "cada passo daquele dia".
Depois do incidente, a filha de Cláudia parou todos os projetos pessoais e profissionais e está se tratando com um psicólogo. "A minha filha sempre foi muito tímida, nem tinha namorado e sempre muito dedicada aos estudos. Este crime foi chocante demais para ela, para toda a família. Estamos tentando juntar os pedaços. É difícil", conta Cláudia.
Por Cláudia Freitas - Jornal do Brasil

terça-feira, 28 de julho de 2015

Relato de uma Anonima...

Eu fui abusada sexualmente por minha babá, não sei quando começou. Só sei quando terminou, foi com 5 anos, quando eu me mudei.
Eu não sofri violência física, no meu caso o pior foi a violência mental. Minha mãe não tem culpa e se sonhar que isso aconteceu comigo ela vai sofrer muito.
O pior para mim foi crescer me sentindo culpada, quando eu tinha 10 anos era isso o que eu sentia : que era culpada e promiscua. Porque eu deixei isso acontecer, só depois de mais velha eu parei e pensei: " eu tinha menos de cinco anos, a culpa não era minha".

Eu me lembro dela me tocando enquanto passava pomada em mim mamãe não estava olhando, lembro que ela me beijava na boca e de língua, que ela fazia sexo oral em mim e pediu para eu fazer o mesmo nela. lembro que uma vez ela estava dormindo de boca aberta e eu pensei que ela queria um beijo e à beijei na boca.
Depois que eu cresci eu passei o resto da minha infância tendo fantasias sexuais, mas com meninos. Aos 12 anos também tive fantasia lésbicas e até masculinas envolvendo estupro. 

Aos 16 anos me envolvi com um rapaz, eu não queria transar com ele, eu ainda queria guardar alguma pureza para o casamento, mas com medo de perde-lo deixava que ele fizesse o que queria comigo, coisas asquerosas. Eu não sentia prazer naquilo, não havia orgasmo, mas eu queria. Com minha babá era o mesmo, eu não conseguia ficar sem e ela até me ameaçou deixar de castigo sem aquilo. É tão confuso... e em ambas as vezes eu só me senti enojada depois... Quando ele colocava as mãos em mim eu me sentia exatamente como me sentia quando era criança, abusada. Até o cheiro nas minhas mãos era o mesmo. Graças à D'us rompi esse ciclo, mas foi difícil. Depois de romper aquele relacionamento doentio eu passei um ano com nojo de relações sexuais, achando que só existiam para um se divertir, ter prazer às custas de outro.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

"TINHA 11 ANOS, VIRGEM. MEU TIO ME PENETROU. ME SENTI SUJA E MINHA MÃE NÃO ACREDITOU"

“Aconteceu em 1996, quando eu tinha 11 anos.”
Eu morava em um apartamento com meus pais e minhas irmãs, meu pai havia sofrido um derrame há poucos meses e estava de cama. Eu tinha um quarto só pra mim, mas nesse dia o dividia com a minha avó que estava visitando nossa casa.
Não lembro que dia era - era um dia qualquer da semana, um dia comum.
Era madrugada e minha avó e eu dormíamos. De repente alguém entra no quarto sem acender a luz, eu me assusto e fico calada achando ser um ladrão. Me encolho debaixo das cobertas tentando me esconder, mas alguém puxa o edredom e começa a me tocar. As lágrimas rolam em meu rosto, mas eu sequer me mexo. Até hoje não entendo o porquê, mas não consegui me mexer. Ele me beija, sobe em cima de mim, abre minhas pernas e então tenta me penetrar. Eu era virgem, era apenas uma menina e nem sabia o que era aquilo. Ele tenta de novo e ainda assim não consegue. Então força e eu grito, mas ele impede que meu grito ecoe tapando minha boca - foi horrível.
Eu não sei quanto tempo ele ficou ali, ele não disse uma palavra sequer enquanto me penetrava, apenas gemia - e eu chorava - parecia uma eternidade. Finalmente ele terminou, me beijou novamente e então falou - nunca me esqueci - "você sabe quem está aqui? Sou eu, seu tio. Fiz isso porque te amo e sabia que estava preparada e ia gostar".
Eu em um impulso de raiva o empurrei, ele esbarrou na luz, minha avó abriu os olhos, mas virou para o lado como se nada tivesse acontecido. Olhei pra ele sujo com o meu sangue e senti nojo de mim. Ele abriu a porta e saiu. Me enrolei no lençol e fui para o banheiro, fiquei muito tempo sentada no chão em baixo do chuveiro, queria tirar aquilo de mim, queria limpar aquela sujeira, mas não podia.
Amanheci no banheiro com vergonha de mim, com medo, sem saber o que fazer. Não podia contar para o meu pai, ele estava doente. Então, chamei minha mãe que me disse "você está louca, menina!". As lágrimas invadiram meus olhos e eu disse “mãe, a vó viu, pergunta para ela”. Mas, minha avó disse o mesmo - que era loucura minha - e eu ganhei uma bela surra por isso.
Nunca mais fui a mesma. Parei de estudar aos 13 anos, me envolvi com drogas e bebidas e fiz muito sexo. Queria que alguém me amasse e até hoje acho que através do sexo recebo amor. Nunca consegui me relacionar tranquilamente com ninguém. Sou mãe de 3 filhos de relacionamentos diferentes.
O que isso mudou na minha vida? Tudo.
Sou uma mulher frustrada, obesa, mãe solteira e que ainda assimila sexo com amor. Sou completamente infeliz.
O estupro não violou só meu corpo, violou minha vida e minha alma. Eu era apenas uma menina que queria casar virgem e ser amada e feliz.
Até hoje busco entender o que eu fiz pra causar aquilo, ainda me sinto suja e envergonhada.”
Por que publicar esse relato?
Após publicar as histórias das repórteres do Bolsa de Mulher que já foram vítimas de abuso, passamos a receber uma infinidade de relatos tristes. Muitos deles envolvendo abuso sexual de crianças.
Esse é um dos tantos que mexeu com a equipe do site. Porque era uma criança. Porque nenhuma mulher, muito menos uma criança, merece ou é culpada por um abuso. Enxergamos a importância em divulgar essas histórias que chegam a nós, com o consentimento das vítimas e sem identificá-las, para levar o debate de um tema tão importante para nossas leitoras.
A publicação deste e de outros relatos tem como objetivo conscientizar todas as mulheres vítimas de abusos, sejam eles psicológicos, físicos ou sexuais: nós não somos culpadas pelas violências das quais fomos vítimas. Além de também alertar as famílias para uma triste realidade: a maior parte dos abusos sexuais acontecem dentro de casa ou são cometidos por pessoas próximas às vítimas.
É preciso falar mais sobre o tema para sabermos que ele não está tão distante de nossa realidade como muitas vezes pensamos. Todas podemos ser vítimas. Nossos filhos também. Como vamos evitar isso? Tornando essas histórias cada vez mais públicas, humanizando as vítimas e denunciando. Nos tornando conscientes dessa realidade alarmante.
Abuso infantil
A pedofilia comumente é caracterizada como abuso sexual infantil, ato ou jogo sexual envolvendo um ou mais adultos e uma criança ou adolescentes. Informações da organização Children’s Rights revelam que, por ano, quase 2 milhões de crianças ao redor do mundo são vitimas da violência doméstica.
Os dados alertam para um grave problema: na maioria dos casos, os agressores estão muito perto dos violentados. Quando falamos de crianças, o problema é ainda maior já que, com menores condições e artifícios de defesa, elas se tornam vítimas mais fáceis e frágeis.
Ainda de acordo com a organização, entre os impactos dessas experiências estão problemas psicológicos e transtornos mentais graves. Além das possíveis consequências físicas, as estrutura psíquica e emocional do indivíduo é completamente alterada e a superação do ocorrido, como foi possível ver com o relato da leitora, difícil e dolorosa.
É por isso que todos aqueles que vivem cercados de crianças ou adolescentes – sejam pais, professores, familiares ou amigos - devem estar sempre atentos. A criança, quando está passando por situações de abuso, dá sinais e é necessário saber quais são eles – e nunca, em hipótese alguma, duvidar de suas confissões.
Baixa auto-estima, ansiedade, agressividade, timidez excessiva e depressão são alguns indicativos de que alguma coisa está indo mal com o desenvolvimento daquele indivíduo. Investigação, acompanhamento e diálogo são essências nesses casos.
Como denunciar casos de abuso infantil?
Para denunciar casos de pedofilia é possível ligar gratuitamente no número 100 – disque denúncia nacional da Secretaria dos Direito Humanos do Ministério da Justiça (a mensagem também pode ser enviada por e-mail para disquedenuncia@sedh.gov.br). Além disso, o conselho tutelar da cidade pode ser acionado junto com a realização de uma queixa na Polícia Militar, com a elaboração de um boletim de ocorrência.
E você? Já foi vítima de abuso?
Falar sobre as experiências pelas quais passamos é um processo importante para aceitar o que aconteceu e também para superar. Além disso, é muito importante para ajudar outras pessoas a enfrentarem essa situação e conscientizar a população sobre o problema. Foi isso que pensamos ao decidir criar espaço no site para essas histórias. Também queremos saber a sua. Fique à vontade para se abrir. Envie um e-mail para a nossa redação (através do redacao@bolsademulher.com) e compartilhe o que você nunca contou para ninguém. Se você permitir, contamos sua história para outras leitoras, sem nenhuma identificação.
FONTE: BOLSA DE MULHER

sábado, 25 de abril de 2015

Depoimento da J.V.

Olá, sou uma mulher de 32 anos, mãe de dois "anjinhos" (3 anos / 02 meses), casada e advogada.

Advogo há 09 anos em uma instituição que tem como objetivo a proteção dos direitos da criança e do adolescente em situação de risco.

Dentre outras violações de direitos, combatemos com veemência a exploração e o abuso sexual infanto-juvenil. Esse é um tema muito importante de ser discutido e ainda pouco conversado e divulgado.

Não foi por acaso (até porquê não acredito em acaso) que fui parar em uma instituição como essa.

Quando eu tinha aproximadamente 05 anos fui abusada pelo marido da minha tia com quem eu e minha família tínhamos os laços mais estreitos e cujos filhos eram os primos mais chegados.

Minha família sempre passava as férias de julho e janeiro na cidade onde eles moram e infelizmente, valendo-se da confiança que eu tinha no meu "tio" ele cometeu esse crime, o qual perdurou por aproximadamente 05 anos.

Minha família é extremamente tradicional e um escândalo desse vir à tona seria um "absurdo". Assim o muro de silêncio perdurou ou melhor perdura até hoje.

Eu era muito pequena e o que ele fazia não me provocava dor, era até gostoso (essa frase eu demorei anos de terapia para assumir). Lógico, ele era meu tio mais próximo e tocava em zonas erógenas.... logo não era ruim. Por um tempo! Eu não sabia exatamente o que ele fazia ou porque fazia. Por que era só comigo? Eu era a preferida? Hummm isso seria interessante para uma menina de 05 anos. Mas o tempo passou e fui começando a entender que aquilo não era tão legal, que me incomodava, que eu não pedia por aquilo. Não era meu desejo e comecei a ter vergonha... nojo...culpa.... Sentimentos muito pesados para uma criança....

Todas as noites, enquanto eu estava hospedada em sua casa, ele vinha ao quarto em que as crianças ficavam, se aproximava da minha cama e praticava atos sexuais comigo. Por não entender o que acontecia, sempre preferi me manter de olhos fechados, imóvel, fingindo estar dormindo.
Com o passar dos anos, fingia estar acordando, me mexia, fazia barulhos para as outras crianças acordarem, na tentativa de fazer pará-lo. Quando eu estava com aproximadamente 10 anos, os abusos cessaram.

Me mantive quieta por muitos anos. Tinha muita vergonha do que tinha acontecido. Mas meus pais adoravam meus tios! Eu não podia revelar essa história.

Na verdade, com toda a minha inocência de menina, eu tentei revelar a história, mas os adultos não tiveram “ouvidos de ouvir”.

Soube já adulta que certa vez, os adultos falavam algo relacionado a namoro ou sexo e eu (com apenas 05 anos) interrompi a conversa e perguntei se era igual o meu tio fazia comigo. Todos trataram de me tirar do quarto, dizendo para eu ir brincar.

 Já em outra oportunidade (dessa eu me lembro) falei para a minha mãe e para os meus primos que eu havia sonhado que o abuso tinha acontecido. Ouvi: Credo, Deus me livre... vamos, vamos almoçar....

Eu tenho uma irmã mais nova, que sempre foi minha princesa e era muito apegada a mim. Já que os adultos não me ouviram, eu resolvi protegê-la. Mesmo com pouca idade (acho que ela tinha uns 5 anos e eu 11), expliquei pra ela que aquele homem não era bom e que se algum dia ele encostasse nela, que ela deveria gritar e me chamar. Conversamos por muito tempo e por menor que ela fosse, ela entendeu e lembra até hoje dessa conversa. Sempre a mantive perto de mim durante as férias, com medo do monstro se aproximar dela.

Fato é que aos 14 anos, com muitos conflitos internos, reuni forças e contei para a minha mãe. Ela ficou muito enfurecida, chorou, adoeceu, mas não pareceu 100% surpresa. No fundo ela desconfiava que algo havia acontecido comigo, mas preferiu achar que era coisa da cabeça dela... Imagina... uma família tão tradicional com uma história dessa... era muito para a cabeça de uma mulher que acabava de sair de uma separação muito dolorosa com meu pai.

Acontece que com 14 anos você não consegue compreender muito bem os sentimentos dos pais.... talvez com 32 também não.... Ela ficou brava, chorou, adoeceu....mas não me defendeu.... Ela preferiu se afastar daquela família mas  ficar em silêncio... "Deus faria justiça"....

E um sentimento de abandono ficou (ainda fica um pouco) instaurado no meu coração.... Como ela não foi lá e deu um tiro na cara dele?  Um tapa pelo menos... Por que não contou pra família toda? Para a minha tia? .... A tradicional família não poderia sofrer esse abalo...

O tempo passou... Com 25 anos, antes de me casar contei para o meu pai. No fundo eu nutria aquela fantasia de que quando o meu pai soubesse, o mundo viria abaixo....

Realmente ele ficou muito bravo! Deu socos pelas paredes! Chorou! Mas... não me defendeu....

Amo meus pais, sei que eles me amam também, mas não souberam agir, o que me trouxe muitos transtornos ao longo da minha vida. Muitos mesmos. Os danos e marcas de um abuso são profundos e desestruturam as vítimas.

Entendi, então, que somente eu mesma poderia me defender. Então, antes de me casar eu deveria fazer isso por mim, pelo meu marido e pelos meus futuros filhos...Eu queria recomeçar.

Fui à cidade dele, falei com ele depois de tantos anos... disse o nojo que sentia, mas consegui falar muito menos do que eu gostaria.... minhas pernas tremiam e minha oratória sempre tão afiada, nunca havia ficado tão monossilábica.

Mas eu tinha que fazer alguma coisa. Polícia? Impossível! O crime que ele cometeu havia prescrito há muito tempo.... Contei para todas as pessoas da minha família, que tinham filhos, o que havia me acontecido, dizendo que mantivessem seus filhos longe do monstro.

Qual não foi a minha surpresa, senão saber que além de mim, muitas outras primas haviam sido molestadas. Primas até 20 anos mais velhas, ou seja, o abuso atingiu várias gerações. A maioria dos pais das vítimas também já sabiam... mas nunca fizeram nada... Todas estavam tratando disso em divãs de analistas... mas ninguém na polícia....

Muito triste... isso ainda existe!

Voltei para casa com a sensação de impotência, impunidade. Sentia que eu era aquela mesma menina acuada de 09 anos de idade que já não queria mais que aquilo acontecesse....

Mais sessões de análise.... eu precisava elaborar um pouco meu passado para prosseguir... casar.. ter filhos... uma família.

Certa feita, quando eu engravidei do meu primeiro filho, meu marido foi até a cidade do monstro, o pegou pela camisa e disse que se ele quisesse o mataria naquela hora mesmo, mas que ele era um velho podre, acabado, que não valeria a pena sujar suas mãos... Disse que se ele dirigisse sequer seu olhar em minha direção, ele seria um homem morto. Disse que eu estava grávida e que ele jamais, em tempo algum, se aproximasse do nosso filho... Confesso que esse dia, vendo a cara de medo daquele animal, que depois de tantos anos e tanta bebida, se esconde atrás de uma carcaça velha e sem vida, me senti protegida... um pouco pelo menos.... a única vez....

Essa é uma história de muitos meandros, muitos capítulos, mas não vale a pena relatar os detalhes sórdidos. Acho que todos podem imaginá-los. Mas o que quero com esse depoimento não é me fazer de vítima, de coitada.  Não o sou. Dentro da minha realidade, sou muito feliz hoje. Amo e sou amada, tenho filhos maravilhosos... e protegidos.... não posso reclamar. Mas posso ajudar. Alertar aos pais que fiquem atentos a seus filhos. Óbvio, sem paranoias. Mas com muita atenção!

Conversar com os filhos é fundamental. Eles precisam ter confiança  nos pais para lhes contar o que for preciso, mesmo se sentirem culpados por algo.... E se infelizmente o pior vier a acontecer, que os pais façam o correto. Ajam! Vão à polícia, investiguem, corram atrás. Façam o possível e o impossível para essa atrocidade não ficar impune. Isso é dever dos pais. Não só dos pais mas de toda a sociedade assim como a própria Constituição Federal prevê.

Não podemos fechar os olhos para essa realidade... Será mesmo que nossos filhos estão protegidos? Será que estamos atentos ao que se passa com eles?

Tenhamos ouvidos de ouvir. Os filhos mandam mensagens de seus sentimentos o tempo todo para os pais. Cabe a nós, pararmos um pouco para ouvi-los. Precisamos tentar evitar o abuso sexual. Ele acontece em todas as classes sociais e geralmente parte de quem menos esperamos.

Nossos filhos precisam da nossa proteção. Juntos e sem medo de falar nesse assunto poderemos divulgar cada vez mais os mecanismos de prevenção, proteção e defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes.

Urge derrubarmos esse muro de silêncio que se instaura em torno desse assunto!

Um grande abraço.



J. V.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Depoimento de E. N.

" Eu fui uma de tantas crianças que foram abusadas sexualmente na infância por meu pai.

Não fui a primeira nem a última.

Antes de me abusar, ele já abusara de crianças e adolescentes, tanto na família de origem dele como na da minha mãe.
Minhas lembranças de ter sido abusada por ele, vêm desde a época que eu ainda ia ao jardim de infância. Meu pai me assediava diariamente e esta tortura durou por toda minha infância e também adolescência, quando comecei a tentar me esquivar dele e a protestar contra suas investidas.
Como é comum de abusadores deste tipo, desde pequenina meu pai fazia chantagens emocionais comigo, pedia que eu guardasse segredo, como prova de meu amor por ele, pois caso contrário ele afirmava que seria preso.
Ele dizia que as pessoas não entenderiam este amor dele por mim.
Segundo ele, este amor que ele dizia sentir por mim era o maior que ele já tivera.
Ele dizia não sentir amor por minha mãe e sim por mim.
Meus conceitos de certo ou errado, ficaram afetados por muitos anos, pois o conflito de querer acreditar que meu pai estava certo, como toda criança acredita e a sensação de que algo estava muito errado, por causa do segredo que ele me fazia guardar, fizeram com que eu tivesse uma percepção muito distorcida da realidade durante a minha infância.
Jamais consegui ter proximidade com minha mãe ou ser amiga dela, nem eu sentia que ela era minha amiga, pois meu pai dizia que ela sentiria muitos ciúmes e raiva de mim se um dia soubesse que ele amava mais a mim do que a ela.
Assim, como defesa, eu passei a sentir raiva dela desde criança.
Anos mais tarde, quando eu já era adulta, fiquei sabendo que ela tinha conhecimento de que meu pai abusara de pessoas na família dela também, antes de eu nascer.
Sabendo disto não consegui mais ter respeito por ela depois de perceber que, apesar de ela saber que meu pai continuava a abusar sexualmente de crianças, ela ainda insistia tanto em querer ficar ao lado dele.
Acho importante transmitir às pessoas o quanto o abuso sexual se estende para muito além do próprio abuso sexual.
Isso afeta a vida das pessoas no sentido mais intenso e mais extenso que qualquer tipo de violência pode causar, ao mesmo tempo que deixa a pessoa viva para sofrer a dor do abandono, da traição e do desamor.
Minha baixa auto estima, meu sentimento derrotista e minhas dificuldades de relacionamentos culminaram em uma forte depressão aos meus 26 anos, quando fui abandonada por um namorado, que apesar de ser médico, dizia não conseguir conviver com meus estados depressivos.
Como muitas das vítimas de abuso sexual na infância, eu também não quis mais viver…
Após longo período de hospitalização, psicoterapia e antidepressivos, tive retomada a vontade de viver.
Mas o principal motivo, foi acreditar que eu era amada por aqueles que me socorreram: meus próprios pais.
Pedidos de desculpas, foram encarecidamente apresentados, assim como cumprimentos de novenas e promessas de que meu pai jamais abusaria sexualmente de qualquer pessoa novamente, em troca do meu perdão.
Ele se declarava "curado"!
Jurava que eu podia acreditar nele a partir de então.
Eu era a pessoa que mais queria acreditar nisso.
Eu acreditei que a iminência da minha própria morte o fizera perceber o quanto ele havia me machucado e o perdoei tentando recomeçar uma vida nova.
Eu não fazia idéia ainda, de que a história acontecida comigo voltaria a se repetir por muitos anos afora.
Mais tarde, depois de perceber toda a farsa, ao me dar conta de que ele voltara a abusar sexualmente de crianças, passei anos me debatendo em brigas com meu pai e ele tentando convencer as pessoas de que eu era louca.
Todas as tentativas de fazer com que as pessoas acreditassem em mim foram inúteis.
As pessoas da minha família achavam que eu tinha uma obsessão em suspeitar dele por causa do que eu havia vivido na infância.
Fiquei mais uma vez isolada, desta vez por trazer a verdade à tona e tentar proteger novas vítimas.
Sem as interferências negativas de minha família, consegui me fortalecer, apesar de ter carregado ainda por muitos anos o sentimento de culpa de que se um dia eu fosse tornar pública uma denúncia contra meu pai, eu iria destruir minha família.
Apesar disso, a idéia não me saia da cabeça, pois eu sabia que ele continuava a molestar crianças, mas eu me sentia ainda acuada e isolada para tomar uma atitude em relação a isso.
Tudo mudou, quando tomei conhecimento da ASCA, uma organização de sobreviventes de abuso sexual na infância aqui na Austrália.
Ao ouvir as histórias de outras sobreviventes, me dei conta de como minha história se repetia na vida de tantas outras pessoas que eu nem conhecia e também de como ficava mais claro olhar de fora a experiência destas pessoas e analisar meus próprios traumas.
Além dos encontros, outras formas de ensinamentos compartilhados foram a intensa leitura de obras literárias de outros sobreviventes, de terapeutas do ramo e de pesquisas.
Com tudo isso, passei a não me sentir mais isolada e sim fortalecida.
Eu me conscientizei, a partir de então, que era meu direito reclamar minha dignidade e também era meu dever alertar as pessoas para proteger novas vítimas de meu pai.
Denunciei meu pai por escrito às autoridades Brasileiras.
Decidi que ninguém mais me faria calar todas as angústias e repressões que eu tinha atravessadas na garganta por toda minha vida.
Foi a partir daí que a coisa começou a tomar jeito.
A promotoria apresentou a denúncia e com o tempo outras vítimas de meu pai começaram a confirmar os abusos.
Quando o abusador já estiver em idade avançada, como no caso de meu pai, as pessoas se deixam influenciar pela aparência do velho frágil e desprotegido, sem se dar conta de que por trás daquela imagem ilusória existe uma pessoa perigosa.
Outro problema que ainda existe é a crença de que crianças querem seduzir os adultos através do sexo.
Não existe como a vítima ver no terapeuta o seu aliado, se este não acredita na inocência, tanto do ato, como da intenção desta.
Quebrar o silêncio é o primeiro passo para isso.
Entretanto, também é necessário que esta possa se valer de direitos e de mecanismos legais de proteção e de reconhecimento e de respeito pelos danos sofridos.
A falta de legislação adequada que garanta a proteção das vítimas e testemunhas, bem como o afastamento definitivo do abusador de suas vidas, faz com que a grande maioria jamais reclame ou tome a iniciativa de denunciar os abusadores.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Depoimento da Fernanda

Desde que me lembro na minha infância meu pai era alcoólatra, e os meus pais brigavam muito, minha mãe era até mesmo agredida por ele.
Lembro que não consegui aproveitar muito da infância, não lembro da minha mãe sentar brincar comigo ou fazer coisas de mãe e filha, ela trabalhava muito, creio eu que para fugir daquela situação que vivia, e por isso  deixava eu e minhas irmãs na mãos de pessoas estranhas ou na casa de parentes, e algumas dessas pessoas não eram boas, fui abusada até mesmo por pessoas muito próximas a mim até os meus 12 anos, além do abuso sexual também houve abuso emocional, dentro de casa não tinha apoio de ninguém, minha mãe na verdade não tinha como me ajudar pois não sabia oque havia acontecido comigo, então a maneira dela queria me proteger, sendo assim não deixava eu nem ter amigos, como dever queria que eu cuidasse das minhas irmãs menores e da casa, eu era apenas uma criança, enfim cresci uma adolescente depressiva, sem nenhuma auto estima, sofri booling na escola, não sabia me socializar.
Sempre fui a igreja, mais aos 19 anos comecei a ir em uma igreja, onde muitas pessoas me ajudaram e entenderam minha situação, então comecei a passar por um processo, onde cada ferida dessa começou a ser aberta, foi muito difícil para mim passar por um processo doloroso assim, mais valeu apena, hoje tenho uma família, minha família, meus filhos, um marido dedicado, e me abri com ele sobre isso logo no noivado e ele compreendeu minha situação, falar disso antes era difícil, dolorido e sofria muito, hoje estou aliviada em poder compartilhar tudo isso é poder ajudar pessoas com meu depoimento. 
Superei tudo para continuar sonhando, vivendo e proporcionando aos meus filhos tudo oque não me foi dado na infância, sou feliz hoje pois através de tudo oque Deus me deu, posso viver em paz.
Claro que a vida continua e outras dificuldades vêm, mais tenho forças para supera-las e seguir em frente.

A TERRÍVEL HISTÓRIA DE SEVERINA

“Nunca estudei, nunca tive amiga, nunca arrumei namorado na vida, nunca saí para ir a festas. Até os 38 anos, vivi assim e foi assim até quando me desliguei do meu pai, no dia em que ele foi morto.
Meu pai não deixava eu e minhas irmãs fazer nada. Comecei a trabalhar na roça com seis anos.
Aos nove, fui com meu pai para o roçado. No caminho, ele me levou para o mato, amarrou minha boca com a camisa e tentou ser dono de mim. Eu dei uma “pesada” no nariz dele, e ele puxou uma faca para me sangrar. A faca pegou no meu pescoço e no joelho. Depois, ele tentou de novo, mas não conseguiu ser dono de mim.
Em casa, contei para minha mãe e ela me deu uma pisa (surra). Fiquei sem almoço.
À noite, minha mãe foi me buscar e me levou para ele, que me abusou. No outro dia, fui andar e não consegui. Falei: ‘Mãe, isso é um pecado’. E ela: ‘Não é pecado. Filha tem que ser mulher do pai’.
A partir daquele dia, três dias por semana ele ia abusando de mim. Com 14 anos eu engravidei. Tive o filho e ele morreu. Eu tive 12 filhos com meu pai. Sete morreram. Seis foram feitos na cama da minha mãe. Dormíamos eu, pai e mãe na mesma cama. Um dia, uma irmã minha disse que estava interessada em um namorado. O pai quis pegar ela, disse que já tinha um touro em casa.
Eu mandei minha mãe correr com minha irmã. Depois disso, minha mãe não ficou mais com ele. Foram para a casa do meu avô em Caruaru. Ela e as minhas oito irmãs. Só ficamos eu e meu pai na casa. Eu tinha 21 anos, e ele sempre batia em mim. Tentei me matar várias vezes, botei até corda no pescoço.
Os filhos nasciam e morriam. Os que vingavam foram se criando. Minha filha estava com 11 anos quando ele quis ser dono dela. Eu disse para ele: ‘Se você ameaçar a minha filha, você morre.’ Meu pai me bateu três dias seguidos.
Um dia, ele amolou a faca e foi vender fubá. Antes, disse: ‘Rapariga safada, se você não fizer o acordo, vai ver o começo e não o fim’. Ele foi para a feira e eu para a casa da minha tia. Foi quando paguei para matarem ele.
Peguei um dinheiro guardado e paguei ao Edilson R$ 800 na hora. Quando o pai chegou, Edilson e um amigo fizeram o homicídio.
A minha filha, a filha dele, eu salvei. Quem é pai, quem é mãe, dói no coração.
Antes disso, eu ainda procurei os meus direitos, mas perdi. Há uns 15 anos, fui na delegacia, mas ouvi o delegado falar para eu ir embora com o velhinho (o pai), que era uma boa pessoa. O homicídio foi no dia 15 de novembro de 2005. No cemitério já tinha um carro de polícia me esperando. Na cadeia passei um ano e seis dias. Depois do julgamento, fiquei feliz. Agora, quero viver e ficar com meus filhos.”
XXX
NOTA: "Durante a acusação, o promotor do Ministério Público de Pernambuco, José Edvaldo da Silva, surpreendeu os presentes ao júri pedindo a absolvição da ré. Para ele, a acusada foi vítima de coação moral irresistível. E foi além: "O Estado não poderia exigir que a forma encontrada por ela para se defender fosse outra, ainda que envolvendo violência", defendeu, contrariando a posição inicialmente adotada pelo MPPE, que solicitou o desaforamento do júri de Caruaru para o Recife alegando suspeita quanto à imparcialidade do corpo de jurados.
Milhares de crimes não julgados
“Eu não poderia, nem teria condições éticas, de pedir a condenação desta mulher quando não se poderia exigir dela outra conduta e quando ela deveria era ser indenizada pelo Estado”, ponderou o promotor, evidenciando o fato de que, entre sucessivos estupros e agressões físicas e psicológicas, Severina foi, de fato, vítima de mais de cinco mil crimes não julgados ou investigados.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Depoimento de C.A

Falar sobre abuso é sempre uma tarefa muito difícil. Como muitas de vocês, tive em minha infância uma história de abuso sexual. resolvi deixar aqui meu depoimento como forma de desabafo,e pq entendi que compartilhar experiências com outras pessoas nos fortalece e nos ajudam a entender o q passamos. Nunca tive coragem de falar sobre isso com ninguém, sufoquei sozinha essa dor por décadas. Hoje tenho 37 anos, e fui abusada sexualmente aos 7 anos, por um amigo muito próximo da família. na época sem entender o que havia acontecido,só contei uma parte do abuso p minha mãe, e nunca mais toquei no assunto com ninguém. na ocasião, meus pais tomaram as devidas providências para q aquele homem não se aproximasse mais de mim. eles sempre me amaram muito, mas por  falta de conhecimento, não me deram o suporte emocional necessário, eles simplesmente nunca mais falaram sobre o q acontecera comigo, acredito q com esperanças de q eu pudesse esquecer, talvez por conta da minha pouca idade.  Durante muito tempo da minha vida, tentei varrer essa experiência de horror para baixo do tapete. O desejo de que  tudo isso não tivesse acontecido era tão grande q por algumas vezes cheguei a duvidar de minhas lembranças angustiantes. Mas quem passa por uma experiência de abuso sabe que é impossível sair ileso. Quando menos eu esperava, era inundada por aquelas lembranças que me tiravam a paz,o sono, e me roubavam o ar. uma descarga de adrenalina,não conseguia respirar,o coração disparava,como se fosse sair pela boca,suava frio, pernas bambas e estômago completamente embrulhado. sintomas físicos, de minha dor emocional. Ele não feriu apenas meu corpo, feriu também minha alma! Por nunca ter tratado esse trauma,cresci com uma auto imagem destorcida, ansiosa, minha autoestima era muito ruim, me sentia traida,  suja, usada,culpada, impotente,e não me sentia merecedora de nada, tinha uma dificuldade enorme em confiar nas pessoas,achava que qualquer pessoa que se aproximasse poderia me fazer sofrer. Isso me fez ter alguns problemas em meus relacionamentos. Nunca consegui levar um relacionamento por muito tempo, por mais q gostasse da pessoa. Mas ainda q com algumas dificuldades seguia tentando levar minha vida da melhor maneira possíveL,cheguei a pensar que tivesse superado essa fase ruim. Já havia se passado muitos anos, e estava fazendo terapia,mas ainda não tinha tocado nesse ponto,achava desnecessário. quando um dia  sem mais nem menos, me deparei com esse fantasma do passado. Fiquei alucinada! De repente cara a cara com meu  abusador. Sucumbi! Não tinha como continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. Comecei a apresentar sintomas de estresse pós traumático. A partir daí começamos a tratar esse ponto na terapia. Fizemos varias tentativas sem sucesso. Foi aí q por excelência da minha terapeuta, enviada por Deus, começamos um novo tratamento: EMDR( uma forma de reprocessamento dos pensamentos através de movimentos oculare). No início foi desesperador! As  primeiras sessões nos leva a reviver a experiência com muita nitidez. É Nesse momento, q todo medo, raiva,   angústia, nojo, culpa, e todas as lembranças e sentimentos ruins q vc nem sabia q existiam nos rasgam o peito. mas vale a pena sentir tanto... chorar tanto... passar pelo processo é libertador!  Com  decorrer do tratamento o alívio é fantástico!!. Ainda sigo em tratamento, acreditando,  já vivenciando a melhora dos sintomas, e com a certeza de que Deus está cuidando de mim, e curando as feridas de minha alma. E Espero em breve   voltar aqui para deixar meu depoimento completamente curada.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SENTIMENTO DE CULPA / Elisabeth Nonnenmacher

Uma das coisas que mais nos afeta como consequência dos abusos sexuais sofridos na infância é o sentimento de culpa.
Gostaria de compartilhar com vocês sobreviventes as descobertas que fiz em minha busca para a cura e como me livrei deste terrível engano.
Primeiro, pensamos que somos as responsáveis por termos sido abusadas, muitas vezes por que pensamos que SE tivéssemos dito NÃO, isso teria feito alguma diferença.
Mas, temos que ter em mente que a diferença de força física e astúcia, bem como de desenvolvimento da maturidade entre o adulto e uma criança, são parecidas com um coelhinho e um lobo faminto. Que chances tem o coelhinho?
Dizer NÃO, não funciona assim como correr ou se esconder não resolvem. O adulto sempre encontra a criança e sempre controla o que deseja dela, ou desejava de nós.
No meu caso, eu estava sempre em busca da companhia do abusador pois, ele sendo meu pai, me dizia que eu era o maior amor que ele tivera e eu buscava esta certificação todos os dias, mas encontrava abuso sexual diariamente.
Como toda criança, somos motivadas pela esperança de que o adulto nos ame incondicionalmente, e eu não desistia de encontrar isso algum dia, sem que eu precisasse me submeter sexualmente. Assim, passei anos indo em busca do abusador e facilitando os abusos.
Entretanto, em nossa mente tão ingênua, também achávamos que o mundo girava em função de nossa existência e ao notarmos que perdermos o controle de nosso corpo, sentimos que perdemos o controle de nossa existência e esta aí um dos fatores mais fortes do abuso sexual da infância. O descontrole das reações do nosso próprio corpo.
Muitas vítimas se sentem hoje profundamente constrangidas e envergonhadas em admitir que gostavam das sensações das carícias, dos abraços, beijos e dos toques sexuais durante os abusos, mesmo que não entendêssemos o que estava acontecendo na época dos abusos. E é neste ponto que precisamos compreender a diferença entre o sentimento de CULPA e a VERGONHA que carregamos por tanto anos.
No sentimento de culpa, pensamos que eramos a CAUSA dos abusos. E quando tentamos os redimir desta culpa, não encontramos uma forma de fazê-lo pois, nosso corpo respondia aos estímulos do abusador. Mas, compreendi ao longo destes anos que, nosso corpo respondia a tais estímulos, da mesma forma que nossa língua sentia o sabor doce de uma fruta ou de um sorvete.
Mesmo considerando isso, sentíamos que nosso corpo nos TRAIA! E quando não conseguimos corrigir isso, pelo fato de ter acontecido no passado, nos sentimos ENVERGONHADAS de termos GOSTADO de algo que preferíamos não ter gostado pois, era ERRADO…era vergonhoso.
Assim, a VERGONHA é a CULPA de algo que NÃO conseguimos MUDAR. É o sentimento de algo que se torna parte de nós e que não podemos lavar nem cortar fora.
Quantas de nós se sentiram IMUNDAS? Quantas gostariam de ter arrancado a pele, para não SENTIR aquilo que sentimos?
Entretanto, hoje compreendo que o que era errado era o que o ADULTO fazia conosco e não o que sentíamos em nossa INGENUIDADE pois, as respostas do nosso corpo não passavam de REAÇÕES de um corpo SAUDÁVEL em que os estímulos nervosos funcionavam em perfeita harmonia ao responder a tais estímulos sexuais.
O que PIOROU a minha situação no passado, foi a base usada na terapia. Para quem frequentou mais de uma década de terapia como aconteceu comigo, ter que ouvir seguidamente as teorias de Freud serem jogadas na minha cara pelos terapeutas, só aumentaram ainda mais o meu sentimento de culpa e meu sentimento de revolta. Baixaram minha auto estima e me mantiveram DEPRIMIDA durante muitos anos.
Apresar dos terapeutas reconhecerem que o meu pai havia errado ao me abusar sexualmente, ter que ouvir um terapeuta dizer que eu queria ser a “namoradinha do pai” e que eu não tinha como negar que eu havia gostado do que ele fazia comigo e que EU o havia desejado a ponto de que meu corpo respondesse de forma prazerosa, era no mínimo um novo abuso emocional, desta vez no consultório de quem deveria me ajudar a me livrar deste pesadelo.
As teorias de sexualidade Freudianas simplesmente levantaram uma PAREDE na progressão da minha cura.
Minha mente buscava incessantemente por uma saída, como um ratinho de laboratório que corre em círculos dentro de uma gaiola. Minha ansiedade precisava se controlada. Assim como meu silêncio já vinha sendo controlado desde a infância, me colocaram mais uma mordaça.
E, sem conseguir encontrar uma saída, eu havia me livrado de uma escravidão para entrar em outra: As drogas anti-depressivas.
Isso, porque não havia argumentos que eu pudesse vencer, contra a “sabedoria” dos terapeutas que me apontavam como “conivente” com os abusos, para me livrar do sentimento de CULPA.
Cheguei ao ponto de me sentir até CULPADA de gastar tantos anos e dinheiro em tratamentos para tentar ficar revisitando os mesmos pontos, para chegar a um consenso de que eu teria que conviver com esta culpa pelo resto da vida pois, os fatos eram algo que eu NÃO podia MUDAR e que os especialistas me relembravam que eu havia gostado e até facilitado. Assim, como podia eu reclamar algo de errado que meu pai havia feito comigo se MEU CORPO era CÚMPLICE do que ele havia me feito? Eu preferia MORRER do que correr o risco de que alguém viesse a saber da minha VERGONHA!
Por isso, a coisa mais libertadora que me aconteceu foi deixar as terapias convencionais do Brasil e finalmente descobrir esta FARSA que nos aprisiona a estes sentimentos tão destrutivos e que vinham convenientemente sendo perpetuados contra vítimas de abuso sexual na infância como uma estratégia de destruição de nossa saúde e para controle das mentes de milhões de pessoas abusadas no mundo.
As incorretas teorias de Sigmundo Freud foram muito oportunas para as elites mundias da época que apoiaram o seu abrilhantamento profissional para suprimir a existência de um grande número de abusos infrafamiliares e grupos de pedofilia de então. Quando ele quis corrigir seu engano, ele foi abafado e apenas 5 de seus novos exemplares foram vendidos. Apesar disso, as teorias erradas foram as que seguiram por quase um século e até recentemente, propiciando abusos multifamiliares e beneficiando grupos de pedofilia, em detrimento das crianças que se tornavam adultos atormentados pela seu próprio sentimento de culpa.
Por isso gente, CONHECIMENTO é LIBERDADE. Passei anos em busca de respostas de algo que sempre achei que não estava certo e nunca desisti enquanto não encontrei algo que me fizesse sentir LIVRE deste engano, o qual tentaram me fazer carregar pelo resto da vida.
Hoje eu compreendo que a culpa não era minha, que meu corpo respondia porque era apenas saudável, que por ter sido negligenciada e assim abandonada pelos familiares, EU nada poderia ter feito para mudar nada e que por isso também a vergonha não era minha.
Compreendo o que aconteceu, porque e quem se beneficia disso.
Nada disso foi amor, nada disso foi por minha culpa e de nada disso devo me envergonhar nem posso mudar pois não fui eu quem causei nem desejei.
LARGUEI ESTA BAGAGEM!
Estou LIVRE do sentimento de CULPA e da VERGONHA.
E, compartilho as coisas que descobri pois, desejo abreviar o sofrimento de tantas outras pessoas de trilhar os longos anos que sofri.
Talvez vocês e outras sobreviventes consigam fazer o mesmo, se olharem para os fatos que envolveram os abusos, sob ângulos que apresentei acima.
Carinhosamente, de sobrevivente para sobrevivente.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Depoimento do Marcelo Quintela

EU ESTAVA FAZENDO XIXI
...E meu caçulinha bateu à porta do banheiro dias desses: "Papai, um moço disse que você tem que descer até a portaria pra falar com ele AGORA!"
"- Ok, avisa que o papai não pode agora, filhote!"
"- Mas disseram tem que ser AGORA, pai!"
"- Então não vai ser nem agora e nem depois!"

E fiquei ali, no banheiro, tentando entender porque fui tão reativo... Viajei para a época que eu era um pré-adolescente como esse meu filho. Eu era mirradinho, fraquinho, tímido e cheio de tensão! Não era para menos. Passei três anos perseguido por marginais e pedófilos que comiam os garotinhos e as virginzinhas que moravam próximo à Vila Mathias, bairro do Centro antigo de Santos, uma região sombria, cheia de casarões antigos como as que eu vivia com meus avós, mas que eram feitos cortiços subalugadas à dezenas de famílias da imigração nordestina. Os pedófilos mandavam! Davam bola de futebol, roupas bacanas e material escolar para as crianças que assediavam. As mães, quase sempre solteiras e pobres, evitavam perguntar para os filhos de onde vinham aqueles presentes... Fui trabalhar numa tapeçaria, para depois de um tempo descobrir que o lugar era só fachada para ocultar o lugar que as "festinhas" aconteciam: As crianças viam filmes pornôs cheirando cola e fumando maconha, e, então, deitavam umas sobre as outras sob orientação dos adultos. Os mais alucinados eram também "traçados" e os demais se mantinham entre troca-trocas e coca-colas. E eu fugi dali...
Mas um dos caras mandou me buscar à noite. Mandei avisar pra me deixarem em paz. E os meninos me diziam que lá era meu trabalho. E eu alegava que não era mais, e que ali não se trabalhava. Daí veio a cartinha dizendo: "Ou volta ou a gente conta para teu pai que você participa de tudo isso"! Ok, a solução era pedir proteção para meu pai. Mas quando fui contar sem nem saber como começar, ele não quis ouvir: "Marcelo, não me traga problemas". Entrou no seu quarto, deitou e disse para mamãe: "Se meu filho for viado, eu quero que Deus o leve!"
E eu ouvi. Meu pai não confiaria em mim. Desde esse dia sou um cara sozinho! Eu tinha só 12 anos e o medo virou meu mais rotineiro sentimento. Fugi para outra cidade, e o cara estava lá. Eu ia brincar na casa de amigos distantes e na esquina o cara se escondia, nas sombras... Perseguido o tempo todo, vivia sobressaltado! Fui sequestrado voltando da escola, puxado pela mochila. Era um passeio a mais de 180 km/h no cais do Porto. Era só terrorismo. Me mandavam descer em qualquer lugar da cidade e eu nem sabia como voltar para casa! Vinha chorando e orando! Olhava para os adultos com quem cruzava, mas parece que ninguém me via... Parece que eu nem existia... E o diabo ainda fez o "favor" de contar pros caras que eu não podia contar com meu pai! Daí, os meninos batiam a minha porta quase meia-noite: "Vem com a gente ou vamos gritar para acordar teu pai!" Eu gelava! Outras noites meu irmão vinha me avisar: " - Marcelo, tem um moleque aí dizendo que você tem que ir com ele AGORA!"
"- Diz que eu estou dormindo, pelo amor de Deus!" Ele ia e voltava: "Ele disse que se não te levar, ele apanha de uns caras!"
Eu tirava o pijama e me arrastava até a rua da tapeçaria. Lá eu ficava de estátua, inerte, cabeça baixa, exposto aos meus "admiradores". Um calendário na parede trazia uma foto minha. Que vergonha! Mas não me tocavam. Acho que temiam a reação do único menino que ainda tinha família, papai e mamãe, ali na região. Era preciso que eu cedesse, mas eu nunca o fiz. E por isso, paguei caro! A agonia se estendia. Eu vivia entre febres, enxaquecas e orações. Não dormia sempre esperando alguém bater à porta. Um dia veio a própria mãe do cidadão, uma velhinha que mal andava, com elefantíase. Ela me disse que eu precisava ir com ela porque o filho estava quebrando tudo na casa e só sossegaria se me visse! (Meu Deus! Tô perdido!)... Depois de uns dias de sossego inexplicável, eu abri o jornal e li que a policia o prendeu em flagrante enquanto estuprava uma criança de 7 anos. Sim, lá foi ele pra cadeia receber o que sempre deu!
Os anos se passaram... Os outros meninos não sobreviveram... Começaram a lidar com injetáveis pouco antes da AIDS chegar, e quando ela veio, levou todo mundo!
Mas eu estou aqui... Estou em casa...
E tem alguém lá embaixo, na portaria, mandando avisar um homem de 41 anos e mais de 10 vidas em uma só, que eu teria que descer AGORA!
Não!

Já perdoei meu pai e nem lembro do cara, mas não desço!
Não tô traumatizado, mas é verdade que giro o mundo resgatando uns "marcelinhos" abusados por aí, mas isso é a energia do Espírito se valendo da minha dor para proteger tantos pequeninos sozinhos! Sim, talvez eu esteja me salvando cada vez que salvo! Isso francamente não me importa! (Deus usa até doença!). O que importa é que não vou descer pra falar com seja-lá-quem-for que me dê um comando. Se for oficial de justiça ou polícia vai ter que subir... Eu só obedeço a Deus! Ninguém me diz o que fazer, nem para onde ir. Ouço conselhos, não recebo ordens! Sou dono de mim. Virei metal. Só as coisas do Evangelho me amolecem o coração, e eu persigo os que se valem desse Evangelho para abusar da fé de gente inocente, feito "pedofilia espiritual"! Eu bato na porta deles de madrugada: "Tira a pata desse pequenino, seu safado!"
Por fim, nem sei quem estava me chamando...rs
Tô fazendo xixi...


sábado, 1 de novembro de 2014

Um pequeno descanso...

Queridos amigos: vou ficar em recesso por um tempo. Faz seis anos que fundei a comunidade e sinto que o meu rendimento caiu muito, devido aos problemas de saúde e pessoais. Preciso de forças para me renovar e é isso que estou buscando. Somente continuarei escrevendo no Blog "Diário de uma filha do silêncio / Bya Albuquerque". A quem visita o blog, sugiro a leitura de postagens mais antigas também. Sejam sempre muito bem vindos aqui e até a volta. Abraço carinhoso, Bya Albuquerque.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Reportagem da REVISTA CATEDRAL / Francielly Martins Zaluski

É INCRÍVEL COMO UMA REVISTA CATÓLICA PODE FAZER DIFERENÇA, SEM SER PARCIAL E SEM TABUS. E PRINCIPALMENTE SEM OMISSÃO SOCIAL. EU JÁ FUI CONVIDADA PARA VÁRIOS PROGRAMAS DE TV E VÁRIAS ENTREVISTAS, PORÉM CONCORDEI EM DAR SOMENTE UMA, PARA A REVISTA ISTO É, ATRAVÉS DA QUAL CONHECI PESSOAS INCRÍVEIS. FRANCIELLY ME PROCUROU PEDINDO PARA USAR ALGUNS DEPOIMENTOS DO SEGUNDO BLOG, ONDE TODOS OS DEPOIMENTOS QUE ME FORAM ENVIADOS ESTÃO SOB PSEUDÔNIMO. E PEDIU PARA QUE EU RESUMISSE A MINHA HISTÓRIA. ACABEI DEIXANDO ALGUNS FATOS DE FORA (ESQUECENDO), MAS O RESUMO FOI COLOCADO NA ÍNTEGRA. É BOM SABER QUE TEMOS VOZ...SEM SERMOS APELATIVOS...
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PEDOFILIA:
DIGA NÃO!
O perfil é do típico “gente boa”,
politicamente correto, inserido na
sociedade, com profissão e renda,
alguns casados e com filhos,
acima de qualquer suspeita. Eles
se aproximam sorrateiramente,
ganham a confiança da criança,
e em seguida arrancam sua
inocência e infância.

O PERIGO MORA AO LADO
Em março deste ano o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada - IPEA divulgou o estudo Estupro no Brasil.
A pesquisa estima que pelo menos 527 mil pessoas
são estupradas por ano no Brasil. Deste total, 70% são
crianças e adolescentes mas apenas 10% dos casos
chegam ao conhecimento da polícia.
A impunidade é ainda mais frequente quando o crime é
cometido por um membro da família ou pessoa próxima
à criança. Por medo e por vergonha o crime é silenciado
e o criminoso fica impune para continuar a prática com
aquela e outras crianças.
De modo geral, 70% dos estupros são cometidos por
parentes, amigos e conhecidos da vítima. Em se tratando
de crianças, este número sobre para 87,5% o que aumenta
ainda mais a impunidade já que segundo a ministra
Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos
“As autoridades chegam a uma parcela pequena. A
violência é mantida sob um manto de segredo quando
se trata do abuso sexual intrafamiliar. É difícil romper
este segredo”.
Delair e Bya sabem bem como é guardar o aterrorizante
segredo. Elas não se conhecem, mas, carregam traumas
de infância muito parecidos. Foram abusadas e
aterrorizadas pelos seus próprios pais, guardaram por
anos as lembranças e dores das agressões. Quebraram
o silêncio ao contarem para os maridos, e apoiadas por
eles, resolveram ajudar outras vítimas e ex-vítimas.

DELAIR ZERMIANI
“Fui abusada desde bebê até os 14 anos pelo meu pai.
Ele usou várias estratégias, primeiro dizia que todos os
pais faziam isso com as filhas, mas que eu não podia
contar para ninguém porque caso contasse a magia
seria quebrada e eu não iria virar mulher. E eu, com toda
minha inocência aos 5 anos, acreditava.
Depois ele descobriu que eu tinha medo de anão então
ele dizia que anão é toda pessoa que tinha obedecidoao 
pai só até aquela altura e que não deixava mais o
pai fazer, então Deus ficava bravo e não deixava mais
a pessoa crescer. Quando deixei de acreditar nisso, meu
irmãozinho nasceu então ele ameaçava matá-lo.
Aos doze anos ele usava o revólver para me obrigar.
Com cinco anos eu já havia sofrido todos os atos de
uma relação sexual. Minha alegria foi poder frequentar
a escola, era meu refúgio, onde podia ser criança, ou
ao menos fingir ser. Durante anos vivi assombrada, em
constante estado de alerta, tentando me proteger do meu
próprio pai, procurava nunca ficar sozinha, pois eu sabia
que se ele me encontrasse sozinha me pegaria.
Eu me sentia imunda, tinha vergonha e medo. Até que
um dia fui juntamente com o grupo de jovem visitar uma
menina de 13 anos que havia tido um bebê, o filho era do
pai dela. Então aos 14 anos criei coragem para enfrentar
meu pai, pois eu preferia morrer a ter aquele destino”.
Delair conseguiu superar e perdoar o pai, ela compara
a violência que sofreu a uma cicatriz: A lembrança
da ferida está ali, mas não doi mais, ela afirma que a
grande dificuldade está em perdoar o agressor para
então diminuir a dor. Por isso criou uma ONG EVAS –
Ex-Vítimas de Abuso Sexual, que se encontram para
conversar em grupo a fim de superar os traumas. Ela
ministra palestras em escolas, igrejas, universidades (...),
sobre a pedofilia e alerta adolescentes e adultos sobre o
perigo.

BYA ALBUQUERQUE
“Meu pseudônimo é Bya Albuquerque e sou fundadora da
comunidade “Filhas do Silêncio”. Faz 5 anos que fundei
a comunidade. Hoje tenho 47. Fui abusada pelo meu pai.
O abuso começou antes dos 2 anos e se prolongou até os
26, um pouco antes do meu casamento. Vim de família de
posses. Meu pai foi um intelectual com amigos influentes
e também foi um pedófilo e psicopata. Minha mãe
desconfiava, mas ficou quieta. Considerou-me como rival
dela. Passei por todas as fases do abuso: molestamento,
pedofilia, estupro. Com direito a uma gravidez e um
aborto. Muitos perguntam: por que tanto tempo? Eu fui
altamente, cruelmente, e brutalmente chantageada pelo
me pai. Pior que abuso físico, foi a violência emocional
que sofri por parte da minha mãe e do meu pai. Fiz isso
para proteger minha única irmã, 12 anos mais nova. Hoje
em dia ela me despreza e acha que sou mentirosa e louca.
Minha mãe foi tão agressiva verbalmente comigo, que
deixei de viver a adolescência e juventude. Ela me fez
sentir-me um lixo. Após o casamento, meu pai sentiuse
perdedor e começou a praticar assedio moral comigo
e meu marido. Quando a família direta dele soube do
abuso, considerou-me um segredo sujo. Uma família com
dinheiro e formação intelectual.
As consequências físicas e emocionais que sofro até hoje,
e principalmente nesse tempo, são: Doença de Cushing,
vaginismo, transtorno alimentar, depressão, insônia,
fobia social, baixa autoestima, ataques de ansiedade
entre outras.
Sempre fui forte, me formei, casei, tenho dois filhos, mas
não sou feliz. Acho que alguém que passa pelo abuso
sexual e violência psicológica dificilmente alcançará a
paz.
Minha comunidade tem como objetivo maior ajudar
mulheres e homens mais velhos, que vivenciaram o abuso
numa época que isso e o sexo eram tabu, a serem mais
fortes e conseguirem desabafar. Sou sozinha, mas aos
poucos tenho conseguido ajudar e com isso, ajudar a mim
mesma. Não tenho ilusão que o abuso sexual vai acabar.
É como falar no fim de uso das drogas, violência urbana,
corrupção. Mas acredito plenamente na solidariedade”.
Bya tem três blogs, no Diário de uma filha do Silêncio,
fala sobre seu dia a dia e das dificuldades decorrentes dos
traumas sofridos. No Filhas do Silêncio ela posta notícias,
poesias e letras de músicas e no Filhas do silêncio 2,
dezenas de pessoas postam seus depoimentos, e usam
o espaço para desabafar.