Nossas Histórias

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

“COM 5 ANOS, SENTIA ÂNSIA FAZENDO SEXO ORAL NELE. ERA POLICIAL E TENTARAM ESCONDÊ-LO” / FONTE: BOLSA DE MULHER

Atenção: essa é uma história real e foi publicada de forma fiel ao relato da vítima. As palavras utilizadas podem ser fortes e abordar atos sexuais e de violência.
Meus pais se divorciaram pouco antes de eu completar um ano de vida. Então, fui criada por minha mãe e minha irmã mais velha. Minha mãe sempre teve muito contato com sua irmã, minha tia, que tinha dois filhos e mais tarde se casou novamente e teve mais dois filhos com outro homem, um policial.
Não lembro direito quando tudo começou, porém tenho certeza de que aconteceu e, pelas minhas contas, eu deveria ter uns 5 ou 6 anos quando o marido da minha tia começou a se aproximar de mim.
Ele frequentava nossa casa assiduamente e muitas vezes conseguia ter a oportunidade de ficar sozinho comigo. Um dia foram todos ao mercado e apenas nós ficamos em casa. Lembro de ele tirar minha calça e minha calcinha e de eu não entender o que acontecia. Ele me acariciava e logo começou a fazer sexo oral em mim. Perguntava se eu estava gostando, mas eu mal sabia o que estava acontecendo, nem imaginava o que era aquilo!
Outras vezes recordo de ele colocar em canais pornôs e me mostrar os filmes. Quando eu tentava sair, ele me puxava e mandava sentar e assistir, caso contrário ele me mataria e mataria minha mãe. Novamente eu retornava ao sofá. E logo ele começava a me acariciar e me mostrava seu pênis. Mandava fazer sexo oral nele. Lembro de ele rir e me chamar de gulosa quando eu tinha ânsia fazendo sexo oral nele. Colocava o dedo na minha vagina e ria com a minha reação.
Ninguém nunca desconfiou. Eu tentava fugir, mas era difícil, e tudo se tornava cada vez pior. Fui crescendo e quando eu já entendia o que ele estava fazendo, tentava evitar cada vez mais. Morria de medo do que ele faria comigo.
Aos 11 anos de idade eu tive um sonho com ele e acordei chorando. Minha avó estava na minha casa e ouviu. Foi até o meu quarto e disse para eu não me preocupar, porque era apenas um pesadelo. Eu simplesmente disse: “meu pesadelo é real”. Após esse episódio, nossa empregada veio atrás de mim e me perguntava infinitamente o que era meu pesadelo real. Eu contei para ela. Implorei que não contasse à minha mãe, porque eu tinha muito medo. Mas claro que ela contou...
Lembro que depois disso eu fiquei trancada no quarto o dia todo, só esperando o momento em que minha mãe viria falar comigo. Não demorou muito. Ela entrou, sentou na cama e disse: “filha, eu te amo, e não vou deixar ninguém machucar você! Me conta o que está acontecendo. Eu vou te proteger!”. Entre muitas lágrimas e soluços, meus e dela, eu contei.
Minha mãe perdeu o chão. Ela saiu gritando pela casa "ele fez ela chupar ele!!", quebrando tudo e chorando muito. Horas depois, ela me levou à delegacia. Eu fiquei do lado de fora, em um banco, enquanto escutava ela contar e chorar. Ela tentava ser forte na minha frente.
Voltamos para casa e ela e meu pai saíram atrás dele para matá-lo.
Na época, ele era Cabo da Polícia Militar da nossa cidade e tinha 46 anos. O Capitão de Polícia e outros membros da corporação o esconderam dentro do Batalhão. Todos estavam do lado dele.
Após isso tudo, fiz diversos exames, frequentei muitas psicólogas, médicos, fui a muitos delegados, juízes, etc.
Minha tia ficou do nosso lado e logo descobrimos outros abusos, dos filhos dela também. Totalizaram-se 10 crianças abusadas e um estupro* de uma menina de 13 anos, além de ele ter feito uma roleta-russa com um adolescente de 17 anos. Muitas das pessoas abusadas faziam parte da nossa família, poucas eram de fora.
Durante o processo judicial, foi um alerde na nossa cidade. Na primeira audiência, lembro de estarmos no fórum e darmos de cara com ele. Ele olhou para todos nós e riu debochadamente. Nós subimos e na sala eu comecei a contar. Minha mãe chorava e eu disse: "não chora, mãe, já passou, nós vamos vencer". Nesse mesmo dia, minha mãe olhou para a advogada dele e perguntou se ela tinha filhos. A advogada levantou e abandonou o caso durante o meu depoimento.
Eu fui ajudada, fui tratada, tive uma profunda depressão e tentei me matar mais de 3 vezes. Em todas elas, minha mãe me encontrou e me salvou. Ele foi punido com 30 anos de prisão, mas após 5 anos preso ele foi libertado e cumpre hoje a pena livremente por ter tido bom comportamento.
Hoje tenho 19 anos. Vivo uma vida normal. Estudo psicologia e passei por cima das pedras em meu caminho. A história é longa e tem muito mais, mas não quero me prolongar. Só peço que fiquem alerta em suas casas, com seus filhos, e nunca confiem em ninguém.
Por que publicar esse relato?
Depois das muitas histórias que já publicamos de casos de abuso sofridos pelas leitoras do Bolsa de Mulher, continuamos recebendo diariamente relatos tristes que só confirmam o que temos percebido desde que abrimos espaço para abordar esse assunto: o abuso sexual e o estupro estão muito mais próximos de nós do que podemos imaginar. E a palavra das vítimas que nos escrevem nos faz acreditar que continuar tratando desse tema é uma forma de ajudar e, quem sabe, evitar que novos casos aconteçam.
Nosso objetivo é conscientizar que a culpa nunca é da vítima, alertar para que os pais fiquem mais atentos aos seus filhos, para que as mulheres percebam riscos que correm e também – e principalmente – indicar formas de agir contra os agressores, aconselhar sobre como denunciar e ouvir especialistas que possam ajudar em diferentes casos.
Punição para os agressores de crianças
O melhor caminho, apesar de ser bastante doloroso, é sempre denunciar. Se as medidas cabíveis não foram tomadas logo que o caso aconteceu, é possível prestar queixa contra um agressor que praticou violência com uma criança mesmo após a vítima atingir a fase adulta. A pena vai depender do tipo de crime cometido.
No relato acima, a vítima denunciou ainda antes de atingir a maioridade, e o agressor foi punido com 30 anos de prisão. A chance de responder aos crimes em liberdade após cumprir parte da pena tendo boa conduta dentro da cadeia é uma brecha que a lei brasileira permite. Esse benefício pode ser revisto a qualquer momento, desde que haja, por parte do preso, qualquer descumprimento de obrigações ou caso cometa outro crime durante esse período.
Abuso x Estupro
*No texto, a vítima relata outros casos pelos quais o agressor foi julgado e cita abusos sexuais e estupro de maneiras distintas. Isso porque existem crimes diferentes dentro do que a justiça qualifica como violência sexual e pode ser que o acusado tenha sido condenado por outras práticas criminosas, que não estupro. Porém, é importante esclarecer que anos atrás, era considerado estupro apenas abusos com penetração, o que não acontece mais hoje em dia. A lei atual classifica qualquer ato libidinoso forçado como estupro - seja o sexo oral, masturbação ou qualquer outro tipo de carícia sexual. Um advogado pode ajudar a entender em qual caso a violência se enquadra - ou mesmo o Disque Direitos Humanos (100).
Como denunciar
O Disque Direitos Humanos, que atende através do número 100, está disponível 24 horas por dia para receber denúncias de agressão ou abuso contra crianças. Seu nome ficará em sigilo absoluto e, de lá, o caso será transferido para as autoridades responsáveis por investigar o caso. Se preferir, você também pode procurar por uma delegacia e prestar queixa pessoalmente.
E você? Já foi vítima de abuso?
Falar sobre as experiências pelas quais passamos é um processo importante para aceitar o que aconteceu e também para superar. Além disso, é muito importante para ajudar outras pessoas a enfrentarem essa situação e conscientizar a população sobre o problema. Foi isso que pensamos ao decidir criar espaço no site para essas histórias. Também queremos saber a sua. Fique à vontade para se abrir. Envie um e-mail para a nossa redação (através do redacao@bolsademulher.com) e compartilhe o que você nunca contou para ninguém. Se você permitir, contamos sua história para outras leitoras, sem nenhuma identificação.