Nossas Histórias

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Objetivo da minha luta

Objetivo da minha luta

Gostaria, através desse texto, apresentar os meus objetivos em relação ao trabalho que venho realizando. Sou uma vítima de violência / abuso sexual e estupro, praticado pelo meu próprio pai biológico. Sofri essa tortura e pressão emocional durante 20 anos, sob fortes ameaças à minha integridade e à integridade da minha irmã, quase 12 anos mais nova que eu.
Violência – ato ou efeito de violentar. Constrangimento físico ou moral. Qualquer força material ou moral empregada contra a vontade ou a liberdade de uma pessoa; coação.
Violentar – forçar, estuprar, coagir, constranger, obrigar.
Abusar – trair a confiança de, explorar, enganar, desonrar. Prática contrária às leis e aos bons usos e costumes.
Estuprar – violentação, coação com ameaças. Relação sexual sem consentimento e com emprego de força.
Fonte: Dicionário Larousse / Dicionário Michaelis

Sofri as quatro coisas acima. Sei que muitos perguntam: por que por tanto tempo. Porque a violência sexual não é praticada somente contra o seu corpo físico. A maior violência é a emocional. Eu estava sozinha, não tinha ninguém para compartilhar a minha angústia, a minha dor. Com uma mãe que me tratava ora com agressividade, ora com total rejeição. Eu não tinha a quem procurar. Sem falar o medo, o terror que sentia do meu pai. O meu emocional me influenciou tanto, que passei a ter problemas físicos que persistem até hoje. E o pior: a minha baixa estima quase me levou ao suicídio no ano passado.  Somente com muito amor e carinho por parte do meu marido e dos meus filhos é que estou conseguindo sair da depressão. E foi com o total apoio do meu marido que recomecei a escrever; minha filha me ajudou a montar o blog e eu montei uma rede de amigos no orkut e uma comunidade.
O meu blog e a minha comunidade não estão somente focados na violência, mas sim, muito mais nos fatos do dia a dia e na cultura. Devemos diversificar os nossos pensamentos e provar a nós mesmos que somos capazes de outras coisas, além de lamentar o acontecido. Mas muito mais que isso, o meu grande objetivo é ajudar as mulheres a recuperar o amor próprio e a auto estima. É com isso que venho trabalhando, através de vários e-mails que tenho recebido e é esse o meu objetivo final: ajudar.
Escrevi alguns capítulos de um depoimento / resumo do que aconteceu comigo. Dos 06 anos até os 26, convivendo com a brutalidade do meu pai; e após o casamento. É apenas um resumo. Montei um segundo blog com esse depoimento e peço que, com muita coragem e determinação, as outras mulheres acrescentem o seu depoimento para, quem sabe, mais tarde, esses depoimentos se transformarem num livro. Será o nosso grito de protesto, de indignação. Será a nossa vitória. Pois falar, mesmo sendo coagida, ameaçada, é uma grande vitória.
Nós precisamos de toda a ajuda. Não para a nossa exposição. Mesmo porque a maioria de nós usa um pseudônimo. Mas para a divulgação de o que acontece com as mulheres na faixa de 40 anos, que sofreram qualquer tipo de violência na infância / adolescência e precisaram se calar. Para que as meninas que passam por isso hoje, amanhã não precisem vivenciar o desespero que nós passamos.
Agradeço sinceramente a atenção. Com muito respeito, Beatriz Albuquerque.

Depoimento / Bya Albuquerque

Filhas do Silêncio
Beatriz Albuquerque

Filhas do Silêncio / Prefácio

         Por que "Filhas do Silêncio"? Porque na minha época, anos 70 /80, as filhas tinham de manter o silêncio. O sexo era um tabu. Ser abusada pelo pai, era mais ainda. Sua mãe saber disso e não fazer nada (a não ser te culpar por tudo e te rejeitar) era o fim. A quem procurar? Com quem falar? Quem acreditaria em você, mesmo com todas as evidências? É triste constatar que tantas pessoas desconfiavam, mas deixaram passar. Como eu disse no meu primeiro texto: nós, meninas, crescemos e passamos dos 40. Muitas de nós sem conhecer os prazeres sexuais, sem conhecer o que é a paixão, o que é o amor. E eu pergunto: é justo? Muitas de nós com depressão, doenças físicas causadas por doenças emocionais, gordas, descuidadas, com baixa estima. E eu pergunto: o que está sendo feito por nós? E respondo: nada! Quantas de nós poderiam agora estar felizes, realizadas? Com certeza, com ajuda, muitas. Por que se fala tanto da violência contra a mulher e se deixa escapar a pior de todas: a indiferença da sociedade. Quantas cometeram suicídio, mesmo sendo involuntário? Não há estatísticas. E o pior e mais triste é que sinto que esse assunto continua sendo um tabu; as pessoas fogem, não sabem estender a mão. Fala-se tanto em ajuda, em voluntariado. É fácil quando se tem oportunidade! E quando não há essa mesma oportunidade? O que acontece? É fácil: viramos "filhas do silêncio" e continuamos a caminhar na nossa dor e solidão.



Capítulo I – Moscou [1973 a 1976]

Criança é criança. Ainda por cima nos anos 70. Sem malícia, sem preocupações. Principalmente sendo filha única, com os pais proporcionando tudo de bom e do melhor.
Com o tempo, a criança passa a ter discernimento, a entender que algo estava fora do comum, errado. Comigo isso aconteceu aos 06 anos, enquanto estava brincando com um colega no meu quarto. Meu pai me chamou à cozinha, estava com a cara de poucos amigos. Disse-me que jamais eu deveria comentar com a minha mãe que ele me tocava e que isso [o comentário] não acontecesse mais. Lembro que fiquei espantada com a bronca, sem entender direito o porquê da braveza. Só mais tarde lembrei que ao supervisionar o meu banho, minha mãe notou que as minhas partes íntimas estavam avermelhadas e brigou comigo, achando que eu estava me tocando. Expliquei a ela que quem me tocava sempre era o meu pai. Devo ter sido tão natural que ela não comentou mais nada, mas mais tarde deve ter falado com ele. Como ele se justificou eu não sei, mas a partir daquele dia percebi que algo estava errado. Fiquei com medo da reação dele. Até hoje lembro deste fato. O que mais me espanta foi ele não ter esperado para ficar sozinho comigo. Meu colega estava no quarto e meu pai “ardendo” de ansiedade. Essa é a minha primeira, dentre muitas e variadas, lembranças do abuso sexual sofrido durante 20 anos.
Nesta época meu pai era o meu herói. Homem inteligente e culto, querido por todos, cheio de amigos e determinado. Determinação essa que herdei. Como ele era brasileiro [minha mãe é russa], poderia viajar sempre, o que fazia com freqüência. Sempre trazia presentes e livros. Fazia questão de me educar com os livros. Viajou algumas vezes à Itália [uma vez ele me contou que conheceu 56 países], trouxe livros sobre a Roma e mitologia e foi nessa época que comecei a me interessar pela história, principalmente a arqueologia. O sonho de ser arqueóloga persistiu por muitos anos.
Meu pai era engenheiro geólogo, mas trabalhava com traduções e na Rádio Central de Moscou. Na Rádio ele trabalhava à noite e era colega da Satva Brandão, filha de Otávio Brandão, um dos fundadores do partido comunista aqui no Brasil. Satva era historiadora e, seu filho Serguei, um dos maiores arqueólogos de Moscou. Eu adorava os dois. Considerava Serguei como irmão mais velho e ele foi um dos responsáveis por eu amar tanto a história e a arqueologia. Diz meu pai que o outro que gostava muito de mim era Gregório Bezerra. Conheci também o Luis Carlos Prestes e sua esposa Maria com os filhos.
Voltando ao assunto, como escrevi, meu pai trabalhava à noite. Então, nos feriados ou no restinho das férias, quando a minha mãe voltava ao trabalho, sempre saía comigo pela Moscou, me levando aos museus, aos pontos históricos, às exposições. E depois, para almoçar em bons restaurantes, aqueles que normalmente somente as pessoas diferenciadas tinham acesso. Foi uma época deliciosa. As lembranças são nítidas: eu e ele passeando de mãos dadas, sem o compromisso de tempo, aproveitando ao máximo. Uma época inesquecível e começando a ser conturbada. Pois antes dos passeios ou após, sempre havia um clima de intimidade por parte dele, me tocando, me acariciando. Na minha ingenuidade achava que era normal entre o pai e a filha, mas me sentia incomodada e cada vez mais perturbada com a situação. Não contava nada à minha mãe, já que tinha sido proibida disso por ele.
Uma vez, um pouco antes de a gente vir para o Brasil [eu já estava com nove anos], se não me engano, minha mãe ganhou uma viagem a Bielo Rússia e eu já havia parado de freqüentar a escola, pois meu pai queria me mostrar ao máximo a cidade, para que Moscou perdurasse nas minhas lembranças por muito tempo. Foi nessa época que o assédio aumentou. Meu pai me fazia dormir com ele, lembro bem que tentava já me penetrar e se mostrava agressivo se eu reclamasse. Também se mostrava ciumento em relação aos meus amigos. Depois, procurava se redimir, comprando presentes e guloseimas. Nunca comi tanto caviar na minha vida [sempre adorei caviar]. Era no café da manhã, no lanche, nos restaurantes, nos teatros... Um modo de tentar me agradar e “amansar” para a noite. Toda vez que ia trabalhar na Rádio, me levava junto. Uma vez, durante a transmissão ao vivo para o Brasil, fiquei na cabine com ele. Foi o máximo! Sempre depois havia o lanche com caviar e muito sorvete. Sentia-me privilegiada, o que atenuava o medo e a ansiedade de ficar a sós mais tarde com ele.
No dia 13 de novembro de 1976 partimos de Leningrado rumo ao Brasil. Viemos de navio e a viagem durou exatamente 01 mês. Chegamos ao Rio no dia 13 de dezembro. Foi o meu último mês de inocência, de tranqüilidade. Apesar do meu pai ser extremamente rigoroso, era também muito amoroso. Deixei para trás a infância que perdi ao chegar ao Brasil. As lembranças dele passeando comigo, me ensinando a nadar, a dançar; tudo ficou para trás. Juntamente com a minha saudade, ficou a minha inocência. A partir de 1977 começava o terror e a solidão.

Capítulo II – Ribeirão Preto [final de1976 a início de 1982]

         Os cinco anos que morei em Ribeirão ficaram marcados mais pela rejeição por parte da minha mãe do que pelo abuso em si. Não que não houvesse. Mas era menor, pois meu pai viajava muito a trabalho e eu sempre ficava junto a minha mãe. O assédio mais forte foi quando minha mãe deu a luz e, logo depois, precisou retirar o útero por causa de um mioma. Minha avó ficou ajudando com a minha irmã e meu pai fez a “festa”. Novamente fui obrigada a dormir com ele, sempre sofrendo abusos como carícias nas partes íntimas e tentativas de penetração. Eu estava com onze anos e meu corpo havia começado a mudar.
         Em 1978 minha mãe engravidou. Minha irmã nasceu em dezembro de 78, com uma diferença de onze anos e meio entre a gente. Sempre digo que ela foi um anjo na minha vida. Pois graças ao amor que sentia por ela é que nunca tentei o suicídio. Fiz uma tentativa sim, mas “abortei” pensando nela.
         Todos achavam que eu sentia ciúmes. Mas na verdade o que eu sentia era uma dor muito forte por estar perdendo a minha mãe. Não que eu fosse ligada fortemente a ela. Mas foi nessa época, época em que comecei a perdê-la, é que percebi o quanto a amava. Minha mãe se voltou totalmente à minha irmã. Não somente porque ela fosse bebê, mas porque ela era “limpa”, e não “imunda” como eu. É claro que na época eu não entendia que era esse o motivo, mas, de qualquer jeito, a dor da rejeição era muito forte. As brigas eram cada vez mais feias e o meu pai, quando estava em casa, sempre ficava ao lado da minha mãe, não me dava chance nem de ser ouvida. Comecei a me fechar no meu mundo, me isolando cada vez mais, lendo cada vez mais e me sentindo infeliz cada vez mais. Passei a sentir muita ansiedade e comecei ter fortes dores de estômago e insônia. Minha mãe não parava de me agredir verbalmente e, algumas vezes, fisicamente. Começou também a competir comigo, sempre me depreciando, dizendo que eu era feia, que nenhum menino ia gostar de mim, que eu era corcunda [por causa do problema de coluna, eu andava com as costas arqueadas] e “espinhenta”. Comecei a sentir vergonha de mim mesma e a me isolar mais ainda. Foi nessa época que comecei a não me lavar direito no banho, não tocar nas minhas partes íntimas. Eu tinha nojo de mim mesma e, por causa da falta de higiene, comecei a cheirar mal, infectada por bactérias. Minha mãe, que lavava as minhas roupas, nunca fez um comentário a respeito. Mas os meninos da escola começaram a notar e a comentar. Aprendi o que era a verdadeira humilhação, mas não podia fazer nada, não tinha ninguém para conversar, desabafar. E não tinha coragem de me tocar e me lavar no banho. Procurava parecer e agir normalmente, mas por dentro estava uma ruína... É claro que a família percebeu e me taxou de esquisita, problemática. Mas nunca ninguém veio conversar comigo, perguntar se havia algum problema. Era mais fácil ignorar a Bya do que se meter com o meu pai, que tinha um gênio super forte.
         Aos quase 13 anos precisei retirar apêndice, a operação durou várias horas e eu não lembro, mas parece que constataram algo no estômago. Após a operação continuei a sentir fortes dores e o meu médico pediu o exame de endoscopia via retal. Essa é uma das maiores mágoas que ainda guardo da minha mãe. Era um dia frio, minha irmã já freqüentava uma escolinha, mas naquele dia não foi. A faxineira estava em casa, tudo propício para que a minha mãe me acompanhasse ao exame. Mas ela não foi. Deixou que uma criança de 13 anos fosse sozinha. Tive de ir e voltar a pé. Apesar de ser particular, não fui bem tratada pelos enfermeiros [dois] que fizeram o exame. Imaginem a cena: eu sozinha com dois homens que não pararam, durante todo o exame, de fazer piadinhas. Ainda por cima, eu estava menstruada. Então eles retiraram o papel que protegia a maca de metal e, apesar do frio, tive que me deitar nela. Passei por muita dor, incômodo e humilhação. Ao sair do consultório, estava quase em estado de choque. Chegando em casa, ardia de febre, mas minha mãe nem se interessou pelo como foi o exame. Nunca contei a ninguém a humilhação que passei por causa das piadas. Já havia aprendido a me calar. O resultado foi negativo. Somente anos mais tarde é que foi diagnosticada gastrite nervosa, quase chegando à úlcera. O espantoso é que quando eu estava com 21 ou 22 anos meu pai também precisou fazer o exame de endoscopia. Foi tão traumatizante para ele, que quando o médico pediu para repetir o exame, ele me pediu para que o levasse e lhe fizesse companhia. Ajuda essa que me foi negada pela minha própria mãe.
         Aos 14 anos minha mãe veio conversar comigo, dizendo que estava querendo se separar do meu pai e voltar à Moscou. Fiquei desesperada, pois ainda amava o meu pai e não queria ir embora. Fiz um escândalo e ela voltou atrás. Acho que ela me odiou por não ter a apoiado. Mas naquela época, aos 14, nós éramos praticamente ainda crianças. Acho que essa decisão não cabia a mim, mas senti o peso da responsabilidade por ter de tomar uma resolução que não era minha. Não sei o que teria acontecido caso houvesse separação. Talvez até fosse melhor para mim. Mas naquela hora o meu amigo, quem ainda me ouvia, era o meu pai e, apesar de tudo, eu não queria perdê-lo.
         No final deste ano, 1981, eu, minha mãe e minha irmã embarcamos de férias para Moscou. Ao voltarmos, íamos nós mudar para Santos, já que meu pai trabalhava em São Paulo, mas queria nos proporcionar uma vida mais saudável. Foi ali, em Santos, que comecei a vivenciar a verdadeira tortura física e emocional por parte de ambos. Foi ali que descobri o que era o verdadeiro medo, terror, vergonha e solidão. Os piores anos da minha vida. Só sei que sobrevivi e percebi que se havia sobrevivido a tanta pressão psicológica, foi porque eu era forte e que podia lutar.

Capítulo III – Santos

         A tortura começou logo após ao voltarmos para o Brasil. Minha mãe ficou em Ribeirão, para embarcar a mudança. E meu pai fez questão de me levar a Santos, a fim de ajudar na arrumação. Moramos num conjunto de quatro prédios, cada um com três andares, que os primos do meu pai arranjaram e também moraram. Odiei a cidade. Estava acostumada a Ribeirão, com suas casas lindas e arborizadas, com o clube, o shopping. Santos foi decepção desde o início. Com seus canais fétidos e a estrutura cinza. Somente muitos anos depois, passei a gostar de Santos. Quando cheguei, gostei de reencontrar os primos e fazer novos amigos. Todos estavam curiosos em relação a mim. Mas como sempre, meu pai com ciúmes, não me deu chances de fazer amizades. Afinal de contas, ele tinha de aproveitar que a minha mãe estava em Ribeirão. E como aproveitou!   
         Havia um colégio a dois quarteirões de casa, o São José. Mas era somente para as meninas. Meu pai me matriculou no Marista [na época, Santista]. O que foi um grande erro e péssimo para mim. O Colégio ficava no centro da cidade e eu dependia de condução. Nunca entendi a opção do meu pai, já que a minha irmã, desde o pré até o colegial, estudou no São José. Só fui para o colégio, apesar de estar já com quase um mês de atraso, após a chegada da minha mãe. Meu pai estava de férias e não queria perder a “companhia” da filha. Antes de descrever o meu calvário no colégio, preciso contar sobre o meu primo, um ano mais velho e, que me detestou desde início. Ele foi o começo do meu pavor pelos meninos e pelo pavor de passar pelos mesmos. Não sei por que o Bruno implicou comigo. Nunca havia feito nada a ele, mal o conhecia. Mas durante anos, somente perdendo para o meu pai, senti o verdadeiro pavor de uma pessoa. Com certeza, ele nunca ficou sabendo o quanto colaborou para a minha Fobia Social, Ansiedade e Baixa Estima!

Capítulo IV – Santista

         Santista foi um pesadelo desde o início. Havia três anos que o colégio havia aberto as portas às meninas, então eram três garotos para cada garota. O que para mim era ruim. Já comecei mais tarde, e, ainda por cima, numa cidade desconhecida e num colégio novo. A “sorte”, que como era no primeiro colegial, havia um monte de gente nova. Mesmo assim, me senti em desvantagem.
         Em Ribeirão eu tinha tido noções de geometria. Ali, a geometria era uma matéria a parte da matemática. Eu estava acostumada com mais liberdade, o colégio era rígido. Assim mesmo, acabei fazendo algumas amizades. Em Ribeirão, estava acostumada com a camaradagem entre meninos e meninas. Mas em Santos, tudo parecia paquera ou competição. Acabei me isolando mais ainda no meu mundo particular. Mas continuava sendo imparcial externamente, apesar do medo e da timidez. A insônia se instalou com tudo e com a ansiedade, a dor de estômago somente aumentou.
         Minha mãe continuou a me tratando mal; as brigas ficando cada vez mais fortes e, a pena que eu sentia dela, juntamente com o desprezo, maiores. Meu pai, trabalhando em São Paulo e sempre viajando, se aproveitava ao máximo de mim quando estava em casa.
          É claro que eu continuava a não me cuidar, a não me tocar e nem me lavar direito. Comecei a ter sérios problemas de odor desagradável. Não sei como a minha mãe não falava nada. Mas, além de certos alunos, os professores também perceberam. E, quase aos quinze anos, senti o horror da vergonha, da humilhação e da impotência diante deste fato. Sempre fui a aluna “brilhante”, a primeira da classe. Perdi o gosto pelos estudos. As minhas notas despencaram e fui taxada de medíocre por vários colegas. É claro que os meus pais não se interessaram em saber por que o meu rendimento caiu. Por falar a verdade, nem o próprio colégio mantinha interesse pelos alunos. Acredito que se houvesse um interesse real por parte dos pedagogos e professores, eu teria recebido algum tipo de ajuda. Somente quando fui cursar o último ano, é que a orientadora achou que eu era quieta demais e me mudou de classe. Isso, sem nunca ter conversado comigo! O que foi um grande erro, pois eu já tinha amizades e, com mudança de classe, tive de recomeçar. Fora que a classe tinha mais meninos que meninas e, imediatamente, fui hostilizada por elas. Era o que hoje em dia se chamaria de buling. Sem falar que, apesar de eu nunca reparar, a minha aparência não era das piores, o que chamou atenção de muitos garotos. Mais um ponto negativo para mim. Além da indisposição das meninas, ganhei fãs e fui eleita como representante da classe. Foi o fim de qualquer tentativa de fazer amizades. Durante o ano todo, só fiz uma amiga e um amigo. Os da classe passada, não tinham mais tempo para mim e me senti cada vez mais isolada. O pior foi quando os garotos perceberam o cheiro mau que eu exalava. Acabou-se o “encanto” e começou a troça e, mais uma vez, a humilhação. Comecei a ficar seriamente doente. Era o emocional que atacava o físico. Tive pneumonia e, mais uma vez, precisei ir sozinha aos médicos. Todos os dias ficava com febre de quase 41 graus, sem causa aparente. Delirava... Não conseguia dormir e, pela primeira vez, pensei em morte. Pedi para os meus pais para me trocarem de colégio, mas eles não aceitavam. Então comecei a pedir para que deixassem eu parar de estudar e repetir o ano. Qualquer coisa para sair do pesadelo. Mas estávamos no meio do ano, e o sonho do meu pai era ver a filha passando na FUVEST / USP. Minha mãe foi conversar com os professores e, com ajuda de alguns [aliás, até hoje, muito especiais para mim], consegui terminar o ano.
         Devo dizer que nesses três anos nunca tive um namorado. O único que se interessou por mim foi tão maltratado pelo meu pai [como muitos outros depois] que desistiu de mim. No final do terceiro colegial, o meu vizinho se encantou comigo. Começamos a sair e a namorar. Não durou dois meses. Mas não foi por causa do meu pai. Foi porque ele era o primeiro homem decente que encontrei na minha vida. Quando ele percebeu que eu era menina de “família”, deixou bem claro que ele não servia para mim, pois jamais teria coragem de me machucar. Como ele já estava com 22 anos e eu com 17, ele tinha medo de me magoar, já que a vida sexual dele era ativa. Ele foi sincero e eu só posso dizer uma coisa: obrigada Maurício!
         No final de 1984 prestei o vestibular da USP. Eram 96 questões da primeira fase. Eu fui prestar somente por insistência dos meus pais. Minha única amiga da classe, que ficou com a medalha de prata oferecida pelo colégio durante a formatura, acertou 36 questões. Eu, 48, metade da prova. Passei para a segunda fase e, pela primeira vez, me senti mais forte emocionalmente. Não tive a mesma sorte na segunda, mas a partir dessa época começou uma nova fase para mim: a do cursinho e o de crescimento emocional.

Capítulo V – Cursinho

         Fazer o cursinho foi um bálsamo para mim, após três anos de medo e humilhações. Saí de um colégio rígido e fui parar num cursinho super liberal, sem muitas regras. Senti-me hiper bem desde o início. Gostei das aulas, dos alunos, dos professores, das brincadeiras. Fiz várias amizades e o melhor: percebi que estava com ótima aparência. Sempre fui muito magra, abaixo do peso ideal. Mas era baixa, então havia harmonia. Todos diziam que tinha um corpo perfeito. Estava bronzeada, e por causa do sol, meu cabelo clareou tanto, que chegou a ficar quase loiro. E então percebi o “poder” que exercia sobre certos meninos e professores. Mas continuava a ter medo de me envolver emocionalmente. Preferia “curtir” a paquera, do que namorar. Uma coisa ruim que fiz foi conseguir conquistar certos garotos e depois despreza-los. Não fiz isso com intenção de magoá-los. Mas estava inebriada com o poder de sedução e também tinha medo de iniciar a minha vida sexual. Aos 17 anos conversei sério com a minha mãe sobre os meus problemas físicos. Fiz exames, por causa da dor de cabeça constante e dor no estômago. Foi constatada renite e, com uso do remédio, melhorei bastante. Também foi constatada gastrite nervosa, me cuidei, e apesar de não ter me livrado totalmente do problema, consigo controlar a dor e hoje em dia já não a tenho. Somente não consegui resolver a parte da insônia, que era cada vez mais forte e que persiste até hoje, mesmo tomando remédios de tarja preta. Mas tudo na vida dá-se um jeito: o meu foi me acostumar com as poucas horas de sono e conseguir controlar a ansiedade por não dormir. Hoje em dia, quando consigo dormir três horas seguidas, já me sinto feliz e descansada.
         Também conversei com a minha mãe sobre o cheiro. Ela se fez de desentendida e me mandou procurar uma ginecologista. É claro que fiz tudo sozinha: achei uma médica em frente ao cursinho; ela me examinou superficialmente (pois eu era virgem) e disse que eu estava infectada de bactérias e precisava fazer aplicações do remédio internamente. Minha grande sorte é que a médica gostou de mim e se propôs ela mesma aplicar o remédio, pois eu era virgem e seria muito trabalhoso. Durante duas semanas, todos os dias após a aula, eu ia ao consultório e recebia as aplicações. Era muito incômodo e dolorido, mas valeu a pena. O cheiro desapareceu e a minha estima aumentou. Passei a me conhecer e cuidar melhor da minha higiene íntima. Jurei a mim mesma que nunca mais passaria novamente por aquele tipo de humilhação. E, realmente, não passei. Mas ela persistiu por muito tempo no meu emocional e, até hoje, ainda me sinto humilhada quando lembro dos fatos. Foi ela (a médica) também constatou cistos no meu ovário e me receitou pílula. Me senti mais segura em relação a minha saúde física, pena não poder dizer o mesmo da minha saúde emocional.
         Nos finais de semana, feriados, férias vivia dias de terror e tristeza. Meu pai sempre incentivava a minha mãe a sair e levar a minha irmã junto. Quando eu fazia menção de acompanhá-las, ele, com gestos, me ameaçava e mandava ficar quieta. Foi com 18 anos que ele me disse com todas as letras que se eu não me submetesse a ele ou saísse de casa, quem iria sofrer era a minha irmã. Ele chegou a bolinar com ela e ela reclamou comigo. Fiquei tão apavorada, que preferi me calar e me submeter. Para que a minha irmã iria sofrer, já não bastava o meu sofrimento? Perdi duas oportunidades de sair de casa, mas não podia abandonar a minha irmã. Foi nessa época que ele começou a me obrigar a fazer sexo oral nele, chegava a gozar na minha boca ou em minhas mãos. Era nojento! Também começou forçar a penetração e pedir para tirar a minha virgindade. Sempre neguei, tentando preservar esse momento tão íntimo. Mas morria de pavor de ser estuprada por ele, o que aconteceu mais tarde, quando ele mesmo constatou que eu já não era mais virgem.
         O pior de tudo era que ele fazia questão de me pagar/comprar. Ele dizia que era um agrado por eu ser uma filha tão “compreensiva”. Além do dinheiro nacional, ele me dava dólares. Nunca usei esse dinheiro para mim. Ou gastava com a minha irmã ou fazia caridade. Eu aceitava, pois morria de medo dele. Mas, com muito orgulho, digo que nunca usufruí da minha dor. Assim como não “vendi” a ele a minha virgindade!
         Os dois anos de cursinho me fortaleceram como pessoa e como mulher. Comecei a trabalhar, tinha dois empregos. Comecei a ser respeitada pelas minhas iniciativas e o meu esforço. Quando foi criada a União Cultural Brasil – URSS, fui uma das fundadoras e, além de professora, também era a diretora do curso de russo. Eu ia levando a vida dentro das minhas possibilidades, mas sempre um pouco isolada e aterrorizada, pois achei que alguém podia perceber algo, já que muitos comentavam o tratamento e a indiferença da minha mãe comigo. Foi nesses três anos (dos 17 aos 20) que realmente me senti mulher e percebi a força que havia dentro de mim. Só não tinha como lutar. Não tinha amigos íntimos, para quem poderia contar o que estava acontecendo e meu pai, com medo de me perder, me ameaçava cada vez mais.
Capítulo VI – A Grande Paixão

         Foi na época da União Cultural que conheci o João Carlos, que era um dos colaboradores e acessores. Apaixonei-me loucamente por ele. Mas havia vários problemas: ele era 14 anos mais velho, meu pai o odiava e o João, apesar de gostar de mim, era um solteirão convicto. Ele não assumia o nosso caso nem para ele mesmo, quanto mais aos outros. Foi nesse mesmo ano (1988) que consegui entrar na USP e conheci o meu marido. Essa foi uma tortura a parte, incutida pelo meu pai. Ele só queria que eu entrasse na USP e no curso de Ciências Sociais, já que o meu sonho era a arqueologia ou antropologia. Mas eu não gostei do curso, pois achei que ia direto fazer antropologia e odiava a sociologia, a política e a economia. Quis mudar para o curso de História, mas meu pai não permitiu. E eu, como sempre, vivia morrendo de medo dele e não ousava desafia-lo. A USP é um capítulo a parte.
         Fiquei com o João, entre idas e vindas, por quatro anos e meio. Meu marido, na época um amigo, se apaixonou “de cara” por mim. Foi um grande amigo, mas a minha paixão era o João. É claro que começamos a nós relacionar praticamente desde o início, mas eu continuei virgem por quase oito meses. Somente aos 21 anos me tornei mulher de verdade e foi com o homem que eu escolhi. Digo mulher de verdade por perder a virgindade, pois somente sentia dor e pouco prazer. Sentia no início, era bom. Mas o meu pai continuava a me molestar e logo, o nojo que sentia do sexo, se estendeu para a minha relação com João. Nunca contei nada a ele, com vergonha e com medo dele não acreditar em mim.
         Após quatro anos e meio implorando pelo seu amor, anunciei a ele que eu era muito nova para ser amante, que queria constituir uma família e terminei tudo com ele (aliás, não sei se tinha alguma coisa para terminar). Só sei que paguei caro por ter brincado com os sentimentos dos garotos do cursinho, pois senti na pele a mesma coisa. Toda vez que eu tentava acabar com a relação, ele ia atrás de mim, fazia algumas promessas, tentava agradar. Nesse tempo houve mais dor que amor. Mas, pelo menos, aprendi que o que vale não é a paixão e sim, o amor construído com muito respeito e companheirismo.
         Depois de dois anos sem ver o Luis Antonio (meu marido), nós nos reencontramos, começamos a sair e logo a namorar. Sempre deixei claro que ele era o apaixonado do casal e eu fui construindo a relação baseada na honestidade, companheirismo e muito respeito. Com o tempo, percebi o quanto amava o Luis. Não era paixão. Era mais forte: era o amor. Assim mesmo, não contei a ele sobre os abusos e, pouco antes do casamento, aos 26 anos, meu pai no desespero, me estuprou pela última vez.        
         Infelizmente, nunca soube o que era uma paixão correspondida. Nunca tive chances de descobrir e curtir. Essa é uma das minhas maiores frustrações. Mas, por outro lado, tive muita sorte de saber o que era amor. Amor companheiro, amor amigo, amor protetor. Então, considero que saí ganhando!

Capítulo VII – USP

         Nunca me senti a vontade na USP. Não somente pelo curso, mas principalmente por ter sido a época em que mais sofri a violência do meu pai. Ele realmente conseguia... Eu morava num pensionato em São Paulo e descia a serra na sexta à noite. Como diretora do curso, ia direto para União Cultural, a fim de realizar reuniões. Aos sábados, dava aula o dia todo: três horas pela manhã e três à tarde. Dava um jeito de me encontrar com o João à noite, então meu pai investia nos domingos. Ao princípio, eu voltava no domingo, mas ficou muito cansativo, então meu pai me propôs de eu pegar o ônibus fretado dele de madrugada na segunda; eu descia perto do metrô e ia até o pensionato, que ficava no bairro de Higienópolis, a um quarteirão da avenida com o mesmo nome e a três quarteirões da Avenida Angélica.
         Nos domingos ele sempre dava um jeito da minha mãe sair com a minha irmã, e como a minha mãe não fazia muita questão da minha companhia, me deixava a sós com ele. Raras vezes passei o final de semana em São Paulo, por causa das aulas de russo. Somente alguns anos depois passei a ficar mais em São Paulo. Quando eu estava com 22 anos, nas férias de julho, meu pai resolveu viajar comigo. Mandou a minha mãe e minha irmã para um outro lugar. Não consigo entender como ele convenceu a minha mãe ou como ela aceitou isso. O fato é que me vi sozinha com ele sem ninguém a quem recorrer e fui altamente abusada/violentada.
         O pior foi o erro que cometi. Ganhamos umas bolsas da Universidade de Moscou para o reforço dos professores de russo. Como eu estava totalmente envolvida com o curso, cada vez mais apaixonada pelo João, abri a mão e mandei a minha mãe no meu lugar. Somente depois percebi a grande besteira, mas já era tarde.
         Precisei voltar a morar em Santos, por causa da minha irmã. Acordava todos os dias às quatro horas da manhã e chegava a USP às oito. A aula era à tarde. Consegui fazer um curso de museologia e o Luis, que na época era meu amigo, sempre vinha me buscar para darmos uma volta no Ibirapuera (o parque). Como a aula terminava às seis e o meu ônibus me pegava às cinco, nunca conseguia assistir a aula até o final. Quando havia muito transito, principalmente na serra, chegava em casa por volta das oito, nove horas. Uma vez por semana dava uma desculpa ao meu pai e ia ver o João. Quase nunca conversávamos. Íamos para a cama, jantávamos e ele me levava para a casa. Super romântico!!! Mas a culpa era mais minha, pois permiti que isso acontecesse. Eu mesma não me valorizei nem como pessoa e nem como mulher.
         No meio de tudo isso, ia levando a faculdade. A primeira grande decepção veio quando escolhi a antropologia física, pois era parte da arqueologia que mais gostava. Descobri que deveria estar cursando medicina ou biomedicina. Então me voltei para antropologia social. Eu gostava e tinha planos de trabalho, já pensava na minha tese de mestrado, apesar de faltar um ano e meio para terminar o curso. Fui convidada para participar de um projeto da RIMA para a SEMLER, contratada pela Andrade Gutierrez. Foi aí que percebi que o meu negócio não era sair ao campo, era pesquisa e dar aulas. Saí-me bem e fui convidada a participar de mais projetos. Mas recusei. Aconteceu o episódio que considero muito sinistro e triste na minha vida...
         É claro que meu pai aproveitou ao máximo a ausência de seis meses da minha mãe. Virei a “mulher” dele, sempre sob fortes ameaças e tortura emocional. Sem falar da tortura física, pois a violência sexual não deixa de ser uma tortura. Mesmo tomando pílula, mais para o controle hormonal e sem nunca ter falhado, engravidei. Fiquei apavorada. Minha relação com o João estava indo de mal a pior e ele não ia querer assumir a criança. Decidi criar o filho sozinha. O Luis, ainda meu amigo, soube da gravidez, mas não sabia nada sobre os abusos. Ele propôs de assumir a criança, dar um nome a ela, em nome do amor que sentia por mim. Nunca ninguém foi capaz de oferecer um sacrifício tão grande por mim. Afinal, ele tinha a sua vida, sua família. Mas então a minha ficha “caiu”: com constantes estupros, esse filho poderia ser do meu pai. Imediatamente contei a ele, omitindo o fato que poderia estar grávida de um outro homem. Ele ficou apavorado e, já no dia seguinte, começou a procurar uma boa clínica de aborto. Um amigo o estava ajudando, mas é claro que esse colega não sabia da verdade. Fiquei arrasada e com muito medo. Quando dei por mim, estava no centro de São Paulo comprando ervas abortivas. Havia um preparado, era só beber. Tomei a mistura e fui para a USP. No meio da primeira aula comecei a sentir fortes contrações e senti o sangue jorrando. A professora e uma colega ficaram apavoradas; eu estava branca, cinza. Por sorte a menina tinha um absorvente, que durou minutos. Comecei a ter uma forte hemorragia. No desespero e mal estar, nem me lembrei do Hospital Universitário. Coloquei mais dois absorventes, peguei um táxi e pedi para o motorista me levar ao Terminal Jabaquara. No trajeto, assustado com a minha palidez, o motorista queria me levar a um hospital, mas eu não deixei. Não lembro como fui parar em Santos. Acho que peguei o táxi especial que descia a serra. Não lembro o que disse para a minha irmã e para o meu pai. Mas não contei a ele que provoquei o aborto. Naquele dia decidi parar a faculdade, a vida não fazia mais sentido para mim. Eu não era correspondida no amor, tinha um pai que era um monstro, uma mãe totalmente ora agressiva, ora ausente. Tudo perdeu a graça. Meu maior sonho sempre foi ser mãe, para poder dar todo o amor que eu não tive. E esse sonho tinha acabado de ser “tirado” de mim. Se eu tivesse a criança, hoje meu filho/ minha filha estaria com 20 anos. Eu simplesmente estava arrasada, e já sofrendo de depressão há anos, recaí.
         Um ano e meio depois voltei para a faculdade. Estava decidida a fazer uma carreira dentro da própria universidade. Mais uma vez meu pai acabou com o meu sonho. Ele continuava abusando sexualmente de mim, não queria me perder. Então ele resolveu comprar um apartamento em São Paulo, para morarmos juntos durante a semana. Apavorada, eu larguei o curso de vez, voltei para Santos, arranjei um emprego, continuando dando aulas. Um ano mais tarde reencontrei o Luis e, após meio ano de namoro, começamos a morar junto e nos casamos. Somente após algum tempo é que contei a minha história para ele. O amor, o carinho, a compreensão e o apoio que ele me deu foram e são incondicionais.

Capítulo VIII – O Casamento

         Estou casada há quase 17 anos. Foram 17 anos de muitas descobertas, muitas crises e muito companheirismo. Temos dois filhos amigos e compreensivos. Pena que por causa do que vivenciaram, são maduros para a idade. Sempre os criei com muito amor e liberdade. Meu marido é pai e muitas vezes a mãe, quando não estou / estive bem. Sempre cuidou deles até melhor que eu. Mas eu nunca neguei amor, compreensão e até mimos aos meus filhos. Se cometi erros na minha vida, de uma coisa eu tenho certeza: sempre fui e sou uma boa mãe. A prova disso são eles: saudáveis, inteligentes e queridos por todos. Adoram eventos culturais, participam dos acontecimentos do dia a dia, tem opiniões formadas a respeito de quase tudo. Eu sei que consegui dar isso a eles. Hoje, minha filha aos 14 e meu filho com quase 12, adoram ficar conosco. Um dos nossos passatempos favoritos é preparar um lanche, sentarmos juntos e ficarmos conversando por horas. É claro que eles têm a sua própria vida social, mas adoram ficar em família.
         Quando comecei a morar com o Luis, mantive uma vida sexual ativa. Não sentia muito prazer, mas não era indiferente ao sexo. Somente meses após o casamento é que contei a verdade a ele. Ele já havia percebido que eu sentia dor durante o ato sexual. Era por causa de vaginismo (que é provocada por problemas emocionais). Com o tempo, passei a ter fortes crises de depressão. Enquanto estava sob o domínio do meu pai, tive de me manter sempre forte e alerta. Mas com o casamento e o fim de abusos, relaxei e a depressão se agravou. Principalmente após os partos. Passei a não sentir prazer nenhum e sexo se tornou um fardo, uma obrigação. Comecei a fugir das relações, até que um dia fiz uma proposta para o Luis: ele poderia arranjar uma amante, desde que fosse somente para o sexo, sem envolvimento emocional. Afinal, tivemos épocas em que mantivemos relações somente uma vez por ano. O Luis recusou a proposta e eu nunca duvidei dele. Aliás, a nossa relação é construída na base de muita confiança e sinceridade, sem ciúmes. Quando comecei a escrever os textos, ele sempre leu e lê o que eu havia escrito, dando opiniões e lembrando certos fatos. E quando fui começar a escrever sobre nós dois, pedi a sua permissão para narrar certas coisas, o que ele nunca negou. Também não se importou de eu falar abertamente da paixão; ele sempre soube que era apaixonado por nós dois. Perguntei se ele havia estado com outra mulher nesses anos de abstinência quase total e ele disse que não. E eu acredito plenamente, pois nesses anos ele cuidou de mim, sempre estando perto, largando empregos por minha causa, por minhas crises. Sempre cuidando de mim, sempre me mimando. E cuidando e muito bem dos nossos filhos.
         O sacrifício do Luis não ficou somente nisso. Com as minhas constantes crises de depressão, fortíssima fobia social e baixa estima, aos poucos ele parou de ter a vida social. Logo ele, com muitos amigos e uma vida social ativa! Mas mesmo eu insistindo para ele sair, ele preferia ficar comigo. Até hoje ele é assim: não gosta de sair sem mim. No entanto me estimula a sair sozinha.
         No ano passado, após completar 42 anos, tive uma fortíssima crise de depressão, fobia social e baixa estima. Considerei que estava velha demais para qualquer coisa e, infelizmente, pensei na única solução de fuga: o suicídio. Achei que eu morrendo, não prejudicaria mais ao Luis e às crianças. Eu sentia vergonha por ser tão fraca, por não conseguir me manter forte. Vivia me cobrando: se consegui sobreviver ao meu pai, por que não conseguia lutar contra a depressão? Mas o amor que eu sentia por eles venceu. Abandonei a idéia e decidi lutar. Percebi que se não me amasse ou me respeitasse, ninguém iria também me respeitar e me aceitar do jeito que sou. E aí veio a primeira grande crise: achei que deveria ir embora, me separar do Luis deixando as crianças com ele, e tentar me reerguer. Novamente senti o vazio da falta de paixão; como fui tola, pois isso não era nada perto do amor que tinha ao meu lado. Ponderei muito, chorei muito. E tomei a minha decisão.
         Nenhuma paixão seria maior do que o amor que sentimos um por outro. Cometemos o erro de nos acomodar, de deixar de namorar, de cair na rotina. Mas esses erros poderiam ser corrigidos! Como poderia deixar um homem por nada, pois não estava e nem estou apaixonada por ninguém. Comecei a lembrar de cada momento de carinho, de paciência e de cuidados que o Luis teve comigo. É claro que sempre o ajudei em tudo e, nas horas mais difíceis, sempre fui a mais forte para tomar as decisões. Até hoje é assim e o Luis sabe e reconhece isso. O amor do Luis é incondicional; o meu amor por ele também é. Graças ao Luis que voltei a estudar, trabalhar, sair de casa, me valorizar, escrever... Graças ao seu amor e à sua dedicação que continuo viva e lutando. E principalmente, graças a ele que comecei a me valorizar como pessoa e como mulher. Mesmo com os seus defeitos, ele conseguiu me reconquistar. Ainda bem!!!

Capítulo IX – A Fuga

         Quando o Luis me pediu em casamento, após algumas semanas de nós nos reencontrarmos (ele disse que não queria perder mais tempo), meu pai até parecia contente. Afinal, ele se preocupava em eu não sentir prazer com ele (que cinismo) e tinha medo de eu ser lésbica. Ele me perguntou várias vezes a respeito das minhas opções sexuais. Então, acho que sentiu certo alívio, o que não permitiu que me deixasse em paz. Só não gostou que nós fomos morar juntos antes. Após de eu ir morar com o Luis, finalmente os abusos cessaram. Mas então começou um outro tipo de terrorismo emocional: me jogar contra o Luis e desejar a nossa separação. Mas como sempre, ele soube “jogar” bem. Quando começamos a morar junto o nosso casamento já estava marcado, já estávamos noivos, feito o curso e providenciando o casamento. Após cinco meses, no dia 15 de janeiro de 1994, casamos no cível e na igreja, com direito à festa. Foi uma cerimônia simples, mas bonita. Foi o nosso momento. Durante dois anos, ele nos deixou em paz. Comecei a acreditar que ele realmente gostava do Luis, mas estava enganada. Após o nascimento da Júlia ele mostrou as garras. Começou a indispor a minha mãe contra o meu marido, até que finalmente conseguiu. E começou a me falar em separação, de que eu seria mais feliz sem o Luis Antonio. Mas o nível de agressividade ainda era suportável, apesar do Luis sentir desprezo por ele pelos abusos cometidos. Meu pai praticamente enlouqueceu com a chegada da neta, e o Luis ficou preocupado com a integridade física da nossa filha. Após o nascimento do Luiz Eduardo, dois anos mais tarde, meu pai “saiu da toca” e começou a hostilizar o Luis abertamente. Aos poucos, foi falando mal de nós para a família. Era completamente “louco” pelos netos, principalmente pelo Dado. Afinal, ele era o filho mais velho com mais quatro irmãs. Teve duas filhas e uma neta. Sentiu orgulho de ter um neto, ao ponto de pedir para colocar um sobrenome diferente o da Júlia, a fim de continuar a linhagem da família. Acatamos o pedido dele.
         Eu e o Luis fomos agüentando a situação do jeito que dava. A vontade era de não vê-lo nunca mais, mas ele era um ótimo avô e as crianças o adoravam. Quando a Julinha estava com seis anos e o Dado com quatro, fui morar por um tempo em Ribeirão Preto com os meus pais. Meu pai estava aposentado e voltou para Ribeirão. Eu estava tendo muitas crises de depressão, as crianças ficaram doentes, estavam estressadas por causa do trânsito, poluição de São Paulo. Em Ribeirão a qualidade de vida seria melhor para eles. Além disso, meu pai me ofereceu de presente um apartamento. Acreditei e fui morar com eles, até achar o mesmo. Só que meu pai simplesmente decidiu “esquecer” o presente. Ele nunca mais me tocou, mas passou a me ignorar totalmente. Minha mãe sempre me tratando mal. Mas as crianças estudavam num bom colégio, meu pai os colocou como dependentes dele no clube que estava a um quarteirão de casa. Elas faziam natação, iam à pracinha e todo final de semana nós íamos para São Paulo, ver o Luis e aproveitar a vida cultural. Eu fiz amizade com uma vizinha que era mãe da colega da Júlia. Fazia uns 20 anos que eu não sabia o que era ter uma amiga íntima. Foi para ela também que pela primeira vez abri o meu coração e contei o que houve. Comecei a dar aulas de português para estrangeiros e particulares. Tive tanta procura que precisei recusar alunos. Só não era mais feliz porque o clima na casa dos meus pais estava “pesado”, ninguém quase conversava comigo. Deixei, mais uma vez, de ser filha, para ser a babá dos meus filhos e a mãe dos netos. Nosso sonho foi sempre morar no interior, eu adorava Ribeirão e as crianças mais ainda. Mas a pressão psicológica para eu me separar do Luis era tanta, que não agüentei. Eles praticamente proibiram do Luis ir ver os filhos e eu estava cansada com tantas aulas e de viajar com duas crianças todo final de semana. Eu e o Luis, diante da situação, resolvemos não morar mais em Ribeirão. Estava mais do que na hora da separação entre eu e os meus pais. Eu tinha pena das crianças, que adoravam os avós e Ribeirão Preto. Mas dois acontecimentos fizeram acelerar a nossa decisão. A primeira foi que meu pai me fez uma proposta: ele me dava um apartamento, um carro, pagava todos os estudos das crianças e até, se eu quisesse, os meus. Eu iria para a Europa para “descansar”. Em troca teria que me separar do Luis. Somente o fato de ser espírita me impediu de dar um golpe nele. Não me arrependo, mas bem que ele merecia! O outro fato é que eu estava passando férias com as crianças em São Paulo, mas uns dias antes de completarmos 10 anos de casados, recebi um telefonema de Ribeirão de uma conhecida nossa, pedindo ajuda para a filha. Ela era a primeira violinista do Teatro Municipal de Ribeirão e foi contratada para a OSESP. A filha havia ficado de recuperação em português e ela precisava matricula-la em São Paulo. Como eles eram russos e amigos, voltei sozinha para Ribeirão. No dia do aniversário de nosso casamento, em vez de me dar os parabéns ou não dizer nada, meu pai me deu os pêsames. Percebi que havia terminado qualquer tentativa de entendimento entre nós. No dia seguinte, 16 de janeiro, voltei a São Paulo. Dias depois veio o que meu pai deve ter chamado de “O Grande Golpe”, o convite para ir morar em Porto Velho, RO. Não pensamos duas vezes. Quanto mais longe, melhor. Só não sabia que não teria paz, o “inferno” iria continuar. Eu poderia escrever mais dois capítulos sobre o que aconteceu, mas é uma outra história. Mesmo em Porto Velho, meu pai não nos deixou em paz. Por duas vezes entrou na justiça tentando tirar a guarda das crianças. É claro que perdeu, mas infernizou bastante. Isso por que não permitimos que as crianças voltassem à Ribeirão. Elas foram por duas vezes e voltaram deprimidas, pois meus pais não paravam de falar mal da gente e intimidá-las, dizendo que iriam conseguir a sua guarda. Além disso, a Júlia já estava quase uma moça (puberdade precoce) e o Luis, com razão, não quis correr o risco da filha ser molestada. Com a ajuda de um psicólogo explicamos tudo às crianças, contando a verdade. Meu filho não quis mais falar com o avô e minha filha ficou enojada. Começaram as ameaças. Nossos conhecidos daqui foram procurados e convidados a depor contra nós, alegando que não cuidávamos direito das crianças. Minha amiga de Ribeirão foi difamada pelos meus pais e precisou se mudar. Nunca mais ela falou comigo, afinal ela vivia em paz antes de ser minha amiga. Eu fiquei doente de tanta dor e ansiedade. Em oito meses engordei 20 quilos por causa do hormônio cortisol, produzido por causa do stress. Eu já havia engordado em São Paulo, por ter tomado cortisona antes e durante toda a gravidez da Júlia. No total, engordei 38 quilos. Corri risco de morte, pois estava com a Doença do Estresse (Síndrome de Cushing). Mal conseguia sair da cama e fiquei oito meses de cama, com problemas de respiração e pressão, ora alta, ora baixa. Mas quando estava bem, trabalhava e estudava. Aconteceram muitas coisas...muitas ameaças...muita agressão verbal. Finalmente, no dia 02 de julho, exatamente um mês após eu completar 40 anos, uma parte do meu martírio terminou. Nesse dia meu pai faleceu, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Até hoje sou considerada pela família a responsável pela morte dele!

Epílogo

Minha mãe e minha irmã fizeram de tudo para continuar, em nome do meu pai (segundo a minha mãe) a infernizar nossas vidas. Inclusive a entrar novamente na justiça. Eu tinha telefone fixo, Skype, internet. Abri mão de tudo para ter paz e minha mãe não ficar ligando e me agredindo verbalmente. Mesmo assim ela começou a ligar no celular. Com uma nova terapia, decidi colocar um ponto final nas agressões e evito, ao máximo de conversar com elas. Nem nos aniversários, nem no Natal. As poucas vezes que precisei falar com ela, sempre terminaram com gritos meus por causa de suas ameaças/agressões. Meu “grito de independência” foi dado no dia 07 de junho de 2009, cinco dias após eu completar 42 anos e nesse dia entrei em crise. No dia primeiro de junho, resolvi parar de fugir e voltar para São Paulo. Também decidi a pôr em prática o meu plano: fazer alguma coisa em prol das pessoas que sofreram violência sexual. Apesar da crise, emagreci 20 quilos em cinco meses. Depois emagreci mais seis. Como eu estava, ao casar, com 6 quilos abaixo do meu peso ideal, estou com o peso quase certo. Falta pouco! Minha estima aumentou consideravelmente. Já não tenho mais vergonha de me olhar no espelho. E o melhor, minha rejeição ao sexo passou. Consigo manter uma relação sexual normalmente, sem dor e sem indiferença. Muitas vezes sinto muito prazer. Comecei a me valorizar como mulher e outros também começaram a me valorizar. Não deixei mais as pessoas me magoarem e cortei as falsas amizades. Continuo a ter crises de depressão, de ansiedade, de fobia social e, às vezes, de baixa estima. Mas não tomo mais os remédios (cheguei a tomar, com supervisão médica, oito tipos de medicação por dia, cerca de 20 comprimidos diários). Faz quatro meses que entrei novamente no mundo virtual. Abri o meu blog e já estou no segundo. Montei uma rede de amigos virtuais e faço parte de várias comunidades. Escrevo textos, lanço o meu depoimento, conto a minha história. Tenho recebido muitos e-mails de pessoas me agradecendo pela coragem e me contando o seu drama. De alguma maneira, com a divulgação do meu próprio martírio, tenho conseguido ajudar. E não há um sentimento melhor: o de se sentir útil. Brevemente voltaremos para São Paulo, para a família do meu marido (que é a minha família), para os amigos. Até pouco tempo atrás eles eram apenas amigos do Luis. Vou fazer de tudo para serem meus também. E nunca mais vou abaixar a cabeça para os que quiserem me agredir. Não vou deixar mais as pessoas me machucarem. Humilhação, nunca mais. Levei 36 anos para buscar a paz e um ano para aceitar a mim mesma do jeito que sou, do jeito que fui. Estou conseguindo. E vou conseguir a ajudar os outros.

Porto Velho, 10 de abril de 2010.