Nossas Histórias

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Depoimento da Mariana


            2012, estou com 21 anos. Sou uma mulher como qualquer outra, tenho minha família, meus amigos, minha faculdade, meus relacionamentos. Mas há pouco mais de UMA DÉCADA atrás, passei por situações que não desejo a criança nenhuma. Parecia estar tudo bem. Eu tinha uma família unida, feliz, apesar dos pesares que todas as unidades familiares possuem. Mas dentro dela, havia (ainda há) uma pessoa sem laços sanguíneos que sempre me tratou bem e, conforme eu crescia, começou a se aproximar bem mais, e eu não via problema nisso, até gostava, porque ele sempre gostou muito de jogos, de brincadeiras, com um comportamento característico de uma própria criança.
            Todos os domingos nos reuníamos na casa da minha avó, onde eu morava na época. E ele começou a criar motivos pra me levar até a casa dele, sempre pra buscar alguma coisa, ou me levar pra brincar com algum jogo no computador. E as coisas foram ficando estranhas. Ele começou fazendo comentários como a comparação do formato do meu seio (que estava crescendo) com o de uma colega que eu tinha, e já tinha o seio um pouco mais formado. A segunda vez, tive o desprazer de ouvir “contos eróticos” que ele recitava enquanto lia na internet, sem entender porque diabos eu estava ouvindo aquilo. Já na terceira e última vez, as coisas pioraram bastante. Ele colocou uma fita pornô no vídeo cassete, sumiu por um tempo e voltou com as calças abaixadas, o pênis ereto e se masturbando. Eu me lembro de ter virado o rosto e dito “eu não quero ver isso”. Fui pra fora da casa. Ele me deu uma arma de chumbo pra atirar nas garrafas pet. Juro que se eu tivesse aquela arma na mão hoje, atiraria nele todas as balas de chumbo do mundo. Porque ele não queria que eu esquecesse o que aconteceu. Ele só queria um jeito de se aproveitar. Disse que ia me ensinar a atirar corretamente, e começou a passar as mãos em volta dos meus seios, que mal existiam direito. Eu sabia que aquilo estava errado. Eu queria contar pra alguém, mas como toda criança de 10 anos acha que vai se dar mal por tudo, tinha medo de brigarem comigo. Então a única coragem que consegui ter, foi de escrever uma carta para minha mãe. Escrevi. Entreguei. E ainda pedi “não fique brava”. Claro que ela ficou brava, e claro que não foi comigo. Foi com o doente do cunhado dela. Ela me abraçou, chorou. E sei que, como toda mãe, se culpou pelo que aconteceu com sua filha. Depois disso, a família inteira foi reunida, ela entregou a carta a ele e pediu explicações. Eu não estava presente, mas minha mãe disse que ele tremia e dizia “eu nem sei o que dizer sobre isso”. Claro que não, vai dizer o que? Que eu inventei tudo?
            Como o advogado que minha mãe procurou disse: “É a palavra de uma criança contra a dele e não existem provas. Com a experiência que eu tenho nesses casos, o tempo vai passar e vocês vão voltar a conviver.” E não deu outra. A relação mudou, por muito tempo não o vi. Mas depois de um tempo voltamos a nos ver em datas específicas, como aniversários e feriados familiares. Há até pouco tempo atrás, eu o cumprimentava e tentava suportar aquela voz fazendo piadas inúteis durante as refeições, muitas vezes direcionadas a mim. Será que ele pensa que, em algum segundo da minha existência, eu me esqueci daqueles momentos? Mas após uma discussão com minha tia (que aparentemente não havia nenhuma ligação com isso, mas com toda a raiva reprimida a situação voltou à tona), eu e minha mãe resolvemos cortar relações com essa parte da família quando minha tia preferiu ficar ao lado de seu marido, ao dizer que “em relação a isso, eu terei que provar”. A nossa conclusão foi que ele fez a cabeça dela, e ela nunca acreditou em mim. Na época, ela pediu a minha mãe: “Não o denuncie. Se você fizer isso, eu nunca mais falo com você.” Hoje minha mãe se arrepende de tê-la dado ouvidos. E hoje, como uma adulta com opinião formada, digo que deveríamos ter cortado relações naquela época e, sim, o denunciado. Também penso que alguém deveria ter me levado a um psicólogo, o que não aconteceu. Acredito que só quem passou por esse tipo de coisa consegue explicar como isso afeta a gente pra sempre. Os meus relacionamentos amorosos nunca foram normais, eu sempre tive muito medo de ser tocada, mesmo tendo confiança na pessoa. E aqueles momentos nunca se afastaram da minha mente. Estar perto dele, por mais que eu tentasse disfarçar pros outros e até para mim, sempre me fez mal.
            Escrevi esse relato como uma forma de desabafo, com a preocupação que eu tenho com as crianças que estão a todo o momento passando por situações como essa, e com o medo que eu tenho de que ele possa repetir essa história com outra criança que ele tem por perto hoje: a própria filha. Esperar por justiça, em casos como esse, é quase que uma esperança perdida, principalmente quando não se é denunciado. Por isso, deixo aqui meu apelo a quem tiver a oportunidade: DENUNCIEM. Porque a inocência nos é tirada, a angústia prevalece pelo resto da vida e não há nada que possa nos fazer sentir melhor.

4 comentários:

  1. Querida amiga Bya !!
    Não sei descrever o que sinto quando leio relatos como este que você postou...
    Uma mistura de ódio ,dor,tristeza,frustração,culpa,sei lá é tudo muito confuso para mim,nada que passei na vida ,nem os períodos que meu marido estava na ativa se drogando quase todos os dias,se comparam com esta profunda tristeza de saber que infelizmente minha filha passou por estes abusos e ainda piores que não tenho coragem para escrever por parte daquele monstro que se dizia padrinho dela...Sei que as sequelas na vida de minha filha são irreversíveis...E nada que eu faça vai apagar este filme de terror de sua mente,pois minha filha de 2 anos pra cá já tentou o suicídio 2 vezes.
    E todos os dias tenho que infelizmente ouvir dela ,uma menina tão jovem ,hoje com 16 anos,mas na época do abuso 9,que ela quer morrer ,não tem prazer pela vida,vive triste e deprimida,esta passando com psicologo,mas nem assim o problema diminuiu.
    Denunciei o infeliz que abusou de minha filha no mesmo dia que ela me contou,e atraves da denuncia encontraram mais 9 vitimas todas entre 8 e 13 anos.
    Meu marido na época que minha filha contou(2010)
    estava limpo a muito tempo e firme na sua recuperação ,mas no mesmo dia teve uma recaída,e desde então nunca mais conseguiu se recuperar,pois se sentia culpado e também queria ter matado o infeliz ,só não o fez pela minha filha que implorou para que denunciássemos o caso e não fizéssemos nenhuma besteira...
    Infelizmente ele como adicto em recuperação não conseguiu lidar com estes sentimentos,e muitas vezes o entendo ,pois se para mim já é difícil imagine para ele.
    Minha filha se sente muito culpada por ter contado ao pai e ele ter recaído e nunca mais se recuperado,por isso se sente responsável pela vida dele e todas vezes que ele some ela se desespera e sai pelas ruas atras do pai escondida de mim... Quase enlouqueço com tudo isso,só quem já passou por situação semelhante pode imaginar a dor que eu sinto e pode ver o estrago que isto faz nas famílias...
    Mesmo tendo 9 vitimas comprovadas , fotos de muitas crianças e material de pedofilia na casa deste infeliz, ele ficou preso por apenas 9 meses e hoje se encontra nas ruas respondendo o processo em liberdade para o meu desespero e o terror da minha filha e das demais vitimas.
    Tudo isso porque ele é uma pessoas muito rica e pagou um absurdo pelo habeas corpus e agora aguarda o julgamento em liberdade pelas ruas,este é o Brasil ,quem tem dinheiro sempre consegue dar um ''jeitinho''.
    Mas tenho fé na justiça de DEUS, que tudo que ele fez ele vai pagar e também tenho muita esperança que um dia eu o veja apodrecer atras das grades,a sentença dele esta para sair até o fim do ano, já esta na mão do juiz,tenho orado muito por esta causa...Espero realmente que a justiça seja feita e que algum dia minha filha consiga superar este trauma tão horrível que passou nas mãos deste lixo.
    Só peço a DEUS que devolva a vontade de viver e a alegria de minha filha,pois ela merece e já sofreu demais...desculpe pelo desabafo amiga...

    beijos e tamujunta

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  2. Querida Luciana, nem imagino como vc está se sentindo...pois também tenho uma filha de 16. Mas tenho ideia de como sua filha se sente, pois fui vítima desde antes dos seis anos até os 26, sob forte coação...ameaças...e chantagens.Meu pai também era rico e eu não tive nenhuma chance...até hoje a família não acredita. Nem a minha mãe e nem a minha irmã,pela qual me submeti ao meu pai por tantos anos. os 16, eu já vivia em eterna depressão e tb queria me matar. Porém a vida dá tantas voltas e sempre nos oferece uma nova chance e é nisso que todos vcs precisam acreditar. Sei que parece impossível...mas não é. Se vc quiser "conversar" mais, meu e-mais é beatriza67@gmail.com. Muita força e esperança é o que desejo a todos vocês. Com carinho, Bya.

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  3. Desculpe os erros de digitação, mas a minha mão treme muito...

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  4. Eu queria dizer que você, Luciana, seu marido e sua filha tem o meu respeito, pra não dizer o meu afeto.
    Depois de ler tantos casos de mães relapsas que apoiam essas atitudes, ou que fecham os olhos, ou que culpam a criança é bom ver pais tão preocupados.
    Espero que sua filha melhore. Espero realmente que ela encontre paz e felicidade, que ela consiga se relacionar normalmente, que ela consiga ter uma adolescência normal. Espero tbm que seu marido supere as dificuldades dele, eu sei que não é fácil, mas do fundo do coração desejo tudo de bom para vocês.

    Eu sei que já tem mais de um ano essa postagem, mas espero que você veja. Espero que sua filha consiga ver nisso o mínimo de apoio pq ela foi uma lutadora por ter contado isso para vocês, por ter tido coragem de se expor e vocês também, por terem cuidado e acreditado nela.

    Não percam a esperança, por favor. Acredite em mim que pessoas como vocês fazem o mundo melhor pq, por pior que seja a situação, vocês estão tentando resolver!!

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