Nossas Histórias

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOBREVIVENTE DA ESCURIDÃO / GRUPO CHEGA DE VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA

Eu fui uma de tantas crianças que foram abusadas sexualmente na infância por meu pai.

Não fui a primeira nem a última.

Antes de me abusar, ele já abusara de crianças e adolescentes, tanto na família de origem dele como na da minha mãe.

Minhas lembranças de ter sido abusada por ele, vêm desde a época que eu ainda ia ao jardim de infância. Meu pai me assediava diariamente e esta tortura durou por toda minha infância e também adolescência, quando comecei a tentar me esquivar dele e a protestar contra suas investidas.

Como é comum de abusadores deste tipo, desde pequenina meu pai fazia chantagens emocionais comigo, pedia que eu guardasse segredo, como prova de meu amor por ele, pois caso contrário ele afirmava que seria preso.

Ele dizia que as pessoas não entenderiam este amor dele por mim.

Segundo ele, este amor que ele dizia sentir por mim era o maior que ele já tivera.

Ele dizia não sentir amor por minha mãe e sim por mim.

Meus conceitos de certo ou errado, ficaram afetados por muitos anos, pois o conflito de querer acreditar que meu pai estava certo, como toda criança acredita e a sensação de que algo estava muito errado, por causa do segredo que ele me fazia guardar, fizeram com que eu tivesse uma percepção muito distorcida da realidade durante a minha infância.

Jamais consegui ter proximidade com minha mãe ou ser amiga dela, nem eu sentia que ela era minha amiga, pois meu pai dizia que se ela sentiria muitos ciúmes e raiva de mim se um dia soubesse que ele amava mais a mim do que a ela.

Assim, como defesa, eu passei a sentir raiva dela desde criança.

Anos mais tarde, quando eu já era adulta, fiquei sabendo que ela tinha conhecimento de que meu pai abusara de pessoas na família dela também, antes de eu nascer.

Sabendo disto não consegui mais ter respeito por ela depois de perceber que, apesar de ela saber que meu pai continuava a abusar sexualmente de crianças, ela ainda insistia tanto em querer ficar ao lado dele.

Acho importante transmitir às pessoas o quanto o abuso sexual se estende para muito além do próprio abuso sexual.

Isso afeta a vida das pessoas no sentido mais intenso e mais extenso que qualquer tipo de violência pode causar, ao mesmo tempo que deixa a pessoa viva para sofrer a dor do abandono, da traição e do desamor.

Minha baixa auto estima, meu sentimento derrotista e minhas dificuldades de relacionamentos culminaram em uma forte depressão aos meus 26 anos, quando fui abandonada por um namorado, que apesar de ser médico, dizia não conseguir conviver com meus estados depressivos.

Como muitas das vítimas de abuso sexual na infância, eu também não quis mais viver…

Após longo período de hospitalização, psicoterapia e antidepressivos, tive retomada a vontade de viver.

Mas o principal motivo, foi acreditar que eu era amada por aqueles que me socorreram: meus próprios pais.

Pedidos de desculpas, foram encarecidamente apresentados, assim como cumprimentos de novenas e promessas de que meu pai jamais abusaria sexualmente de qualquer pessoa novamente, em troca do meu perdão.

Ele se declarava "curado"!

Jurava que eu podia acreditar nele a partir de então.

Eu era a pessoa que mais queria acreditar nisso.

Eu acreditei que a iminência da minha própria morte o fizera perceber o quanto ele havia me machucado e o perdoei tentando recomeçar uma vida nova.

Eu não fazia idéia ainda, de que a história acontecida comigo voltaria a se repetir por muitos anos afora.

Mais tarde, depois de perceber toda a farsa, ao me dar conta de que ele voltara a abusar sexualmente de crianças, passei anos me debatendo em brigas com meu pai e ele tentando convencer as pessoas de que eu era louca.

Todas as tentativas de fazer com que as pessoas acreditassem em mim foram inúteis.

As pessoas da minha família achavam que eu tinha uma obsessão em suspeitar dele por causa do que eu havia vivido na infância.

Fiquei mais uma vez isolada, desta vez por trazer a verdade à tona e tentar proteger novas vítimas.

Sem as interferências negativas de minha família, consegui me fortalecer, apesar de ter carregado ainda por muitos anos o sentimento de culpa de que se um dia eu fosse tornar pública uma denúncia contra meu pai, eu iria destruir minha família.

Apesar disso, a idéia não me saia da cabeça, pois eu sabia que ele continuava a molestar crianças, mas eu me sentia ainda acuada e isolada para tomar uma atitude em relação a isso.

Tudo mudou, quando tomei conhecimento da ASCA, uma organização de sobreviventes de abuso sexual na infância aqui na Austrália.

Ao ouvir as histórias de outras sobreviventes, me dei conta de como minha história se repetia na vida de tantas outras pessoas que eu nem conhecia e também de como ficava mais claro olhar de fora a experiência destas pessoas e analisar meus próprios traumas.

12 comentários:

  1. Deixa eu desabafar.
    Quando alguém perde a infância, perde-a pra vida toda.
    Não da para lembrar-se de momentos felizes, quando os tristes são mais fortes.
    Uma surra se apaga com carinhos e cuidados que se apagam com torturas e desprezo.
    Uma palavra dita e não ouvida, é tormento para os ouvidos que ficam ecoando tais palavras de quem as falou.
    Triste vida de quem não foi ouvida...
    Um grito da alma, a dor de quem perdeu algo que nunca nem conquistou.
    Eu acho que sabia que essa dor não ia passar, mas esperava que passasse, e a cada dia doía mais.
    A dor de não conseguir superar outra dor, é forte e me sinto incapaz.
    Quem me fez incapaz? Quem perguntou se eu queria?
    Eu queria ser criança, eu queria ser amiga e quando crescesse ser esposa, princesa, feliz...
    Não da pra fazer alguém feliz, sendo triste. Triste a dor de quem nunca vai ser motivo de felicidade na vida de alguém.
    Se eu soubesse que seria assim... Não seria eu... Escolheria ser outra pessoa. Mas ninguém quis saber...
    Escrevo e choro, queria ter a chance de uma infância diferente, uma que eu escolhesse, sem luxo, sem riqueza com amor, sem fazer amor. Eu fazia ódio, mas não sabia.
    Uma criança inocente, um adulto covarde e um segredo revelado.
    Quem poderia me ajudar, criança inventa cada uma, e eu inventava coisas feias demais pra uma menininha.
    A criança não quer, o adulto insiste e o mau foi implantado na vida da criança.
    Do adulto não, ele sabia o que queria e nunca se arrependeu.
    Criança sincera, adulto mentiroso e o futuro monstruoso.
    A Criança sente medo, o adulto o prazer. Mas prazer acaba, e ele vai querer de novo, e de novo. O medo fica.
    Coitada da menina, que tinha mãe, que tinha pai...Pai que pai?
    O pai que dava carinho amor, não deixava passar fome,mas cobrou um preço muito alto, a menina vai pagar a vida toda.

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  2. Amiga...passei por tudo isso é achei o seu desabafo perfeito, tanto que vou coloca-lo no blog, pois além de escrever muito bem, o conteúdo expressa bem o que se passa comum abusado sexual. Somente acrescento uma coisa: mãe...que mãe? Que muitas vezes sabe e se cala?

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  3. A minha me mandou parar de inventar coisas, porque ele jamais faria isso. tenho 4 irmãos mais velhos, e todos o defendiam. Me passei varias vezes por louca, e outras vezes minha mãe falava que desejava meu pai. fui proibida de usar roupas curtas em casa.
    não me lembro começou, mas lembro de muitas vezes ele me chamar para brincar, a brincadeira era nojenta, ele falava que era um cachorrão, eu era a cadelinha, ele uivava, eu tinha que latir enquanto ele me sodomizava.
    Lembro de minha mãe ir viajar e mandar eu dormir na cama com ele, se não meus irmãos iam aprontar comigo, outra vezes ela levava meus irmãos pra passear, e eu tinha que ficar em casa com meu pai.
    Muitas vezes ela mandava ele me dar banho.eu já tinha mais de cinco anos e sabia tomar banho sozinha, mesmo assim ela mandava.
    Ele nunca assumiu o que fez, mas quando um rapaz foi me pedir em namoro, meu respondeu:- com essa daí você pode fazer o que quiser.
    Quando aprendi a dizer não pras brincadeiras, e passou a se masturbar na minha frente e as vezes me acochava.
    A última vez que me lembro de algo desse tipo, eu acordei de madrugada com ele segurando meus braços e tentando me beijar na boca.
    Tenho 31 anos, ainda moro no mesmo quintal que ele. Minha usa de chantagem emocional pra não me deixar ir morar fora. Mas nunca se desculpou e, por várias vezes tentou deixar ele cuidando da minha filha.
    Amo minha mãe, e não consigo deixa-la. Ela já perdeu dois de meus irmãos para as drogas, e hoje ela é depressiva.
    Uma coisa que me persegue é que nunca fiquei sabendo de ele fazer isso com outra criança, ou com meus irmãos, minha disse que ele sempre foi um bom pai, e que nunca demonstrou nada com ela.
    Porque eu? Quantas vezes já me peguei pensando se isso não era fruto de minha imaginação.Mas ninguém me falou, eu estava lá infelizmente.

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  4. Infelizmente, nós ainda passamos por culpadas e somos o "segredo sujo". Até hoje minha mãe nega o abuso e me trata super mal, pois diz que fui eu a responsável pelo infarto dele...fazia 4 anos que não os via!!! Também sofri muita coação...chantagem emocional...agressão verbal. E o mais triste: vamos carregar isso até o fim da vida.

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  5. Mas pode ter certeza que, só o fato de poder desabafar, já aliviou esse dia.

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  6. A coisa mais triste e pensar como meu propio pai o homem que deveria me proteger dos mals e capaz de sentir algo desse tipo pela propia filha... de passar a mao e sentir prazer, e agir como se nada tivesse acontecido, dupla personalidade, ngm nunk acreditaria q ele fez isso cmg ! Mas o pior de tudo é que eu simplismente nao sei odiar ele, ele me criou e me dej uma vida e nao é uma pessoa ruim .. mas me pego pensando qual das duas caras é a verdadeira??

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Após ler os depoimentos, sentir vontade de desabafar com vocês, sei que provavelmente não conheço nenhuma de vocês mais tenho certeza que vocês vão me entender.
    Minha vida sempre foi meio desfocada, perdi minha mãe com 2 anos meu pai (felizmente) sempre cuidou de mim e do meu irmão, nunca nos molestou nem nada disso, ele se casou novamente quando eu tinha 4 para 5 anos, minha madrasta sempre foi e é boa para mim, ela tinha dois filhos que eram mais velhos que eu, crescemos juntos, um dia eu cheguei da escola eu tinha por volta de uns 8 ou 9 anos só estava o filho mais novo dela, ele me chamou para o quarto e disse que queria me mostrar uma coisa, eu fui. Quando entrei no quarto ele ligou o computador e colocou um filme porno, e falou vem cá ver, eu me aproximei e fiquei olhando meio sem saber o que estava acontecendo no filme, então ele ficou atrás de mim e falou você podia ser igual essa mulher, fiquei pasma, ele me virou de frente pra ele pediu minha mão, eu estendi pra ele, que colocou sobre seu pênis que estava duro, tirei a mão rápido de lá e sai correndo, ele veio atrás de mim e falou se eu contasse pra alguém ele ia falar que eu estava inventando, e que ninguém acreditaria em mim, fiquei com medo de contar e minha madrasta brigar comigo, como meu pai nunca foi de conversar muito fiquei quieta. Porém depois desse dia alguns dias depois ele foi no meu quarto que era separado do outro onde dormiam os três (meu irmão e os dois fihos da minha madrasta) ele me acordou com o pênis bem no meu rosto, e antes que eu pudesse fazer algumas coisa ele mandou eu abrir a boca, fechei-a mais ainda, mas ele começou a forçar oo pênis dele e falando baixo ele disse que era melhor eu abrir logo se não ele ia m machucar, isso se repetiu várias vezes, eu ficava me sentindo um nojo, mais ainda assim tinha medo de contar o que estava acontecendo e minha madrasta brigar comigo, quando ele começou a namorar parou de ficar indo no meu quarto, eu ficava com medo toda noite, passou mais tempo eu tinha uns 13 anos e por descuido fiquei sozinha em casa (coisa que eu não fazia) e ele chegou mais cedo do curso que ele fazia, quando viu que eu estava sozinha me levou para o quarto e falou que queria ver minha vagina, eu disse que não e que se ele ficasse no meu quarto eu ia gritar até alguém aparecer, ele se afastou e eu pensei que tinha ido para outro lugar, engano meu assim que eu sentei na cama ele apareceu do nada e me prendeu com a boca no colchão e falou "grita agora, quero ver quem vai vim aqui" eu comecei a chorar e ele levantou a saia que eu usava e baixou minha calcinha, eu comecei a me debater na cama para me livrar dele, ele deitou em cima de mim e falou que só queria ver, se eu continuasse a fazer drama que ele podia muito bem me estuprar, eu fiquei mais apavorada ainda, porém me acalmei com medo dele abusar de mim. Depois que ele viu, me jogou na cama e falou- ta vendo eu disse que só queria olhar. E saiu do quarto. naquele dia pensei em matar ele, mais tudo me vinha a cabeça, onde eu iria, o que faria, se alguém acreditaria em mim, acabei me calando essa é a primeira vez que conto isso, e sinto que talves se eu tivesse contado pra alguém ou feito algo podia ter sido diferente. Ele mudou bastante depois desse dia, nunca mais tentou se aproveitar de mim, e se casou. Ás vezes acho que tudo não passou de imaginação, mas sempre me pergunto se fosse assim porque não consigo ficar sozinha com alguém, ou sinto pavor de quando alguém toca em mim?

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  9. Minha querida, não foi sua imaginação...mesmo a gente sempre desejando que fosse. Sinto muito por você...erga a cabeça e siga sempre em frente. Vou postar o seu comentário no blog...pois não deixa de ser um depoimento e, infelizmente, quase ninguém lê os comentários. Muita força a você. Abraços, Bya.

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  10. Olá amigas, podem me chamar de Laura.
    Venho aqui porquê me sinto meio sufocada e acho que alguém poderia entender o que eu falo.
    Quando eu tinha 3 anos meu pai me molestou.
    Eu cresci sendo uma criança isolada, até hoje me sinto mal.
    Minha mãe sabe do ocorrido, mas ela é obcecada com meu pai e tem problema mental então nunca fez nada em relação.
    Sabe o que é pior? Ele é homossexual e diz que o que teve com minha mãe foi apenas uma tentativa de ser normal, mas então qual seria a justificativa pro que ele fez comigo?
    Eu me sinto totalmente sozinha, não posso contar com minha mãe pra nada e com meu pai nem se fala.
    Eu não aguento quando alguém fala de pai e mãe comigo, eu sempre choro.
    Tenho depressão há muito tempo, mas não faço tratamento.
    Cresci sendo maltratada por ele, ele me fazia sentir como um lixo, nunca fiz grandes amigos, sempre estive mais sozinha e hoje em dia não é muito diferente.
    É uma dor que eu carrego à muito tempo, mas talvez eu tenha aprendido a fazer dela uma companhia, alguém que me entende perfeitamente.

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  11. Laura, como sempre, sinto por vc ter vivenciado toda essa violência. Vou postar o seu depoimento no blog, pois assim será visto e conhecido...já que poucos costumam ler os comentários. Muita força para você...muita paz e esperança. Abraço carinhoso, Bya.

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